Ao longe, o barulho do trânsito já não tão
intenso teima, ainda, em perturbar a paz da noite que se inicia.
As mensagens avistáveis ao telefone
acumulam-se e surgem aos borbotões vomitando informações inúteis, notícias
falsas, leituras enviesadas da realidade disforme, acidentes, crimes, mortes e
toda sorte de mazelas que atormentam as vidas alheias e são noticiadas sob falsa
solidariedade.
Poetas de rimas forçadas, textos medíocres,
métrica horrenda, estilos que nutrem a alma dos ignorantes e a hipocrisia dos
aplausos descabidos e desmedidos, conversas esvaziadas de mínimo conteúdo ou
lógica, desprovidas de nexo, infantis, fúteis, inservíveis pululam a não mais
poder.
Fecho os olhos em busca de enxergar o meu
íntimo e buscar, alí, algo que possa iluminar minimamente a vida que se
apresenta vã.
O fungado do cão curioso chama-me de volta ao
obscuro, como se me dissesse: “onde vais?” “Cá estou”. Essa criança que não
cresce implora por uma derradeira brincadeira.
Relutante, descerro os olhos e apresso o passo
para seguir adiante.
As dores do dia-a-dia chamam o meu nome. Urgem
e relutam em deixar-me. O “bolo” no estômago não me abandona. O cansaço teimoso
não se dá por vencido e vem acompanhado das preocupações que afloram e impedem
o sono, a cada vez que penso em deitar-me.
O relógio avança.
Listo as tarefas do dia seguinte. Planejo as
atividades da semana, do mês, do ano…
Caminho por solucionar todos os problemas
pessoais, familiares, locais, do bairro, da cidade, do país, da humanidade.
Todas as soluções são simples. Transformo-me em herói, resolvo pendengas
antigas, volto à juventude, encaro uma velhice produtiva e interminável, como
convém aos que tudo resolvem, até, a marcha do tempo.
O silêncio já invade a madrugada e o relógio
inclemente continua no tictaquear sem fim. Prenuncia o breve amanhecer.
Que fazer? A televisão já não satisfaz. Ler é
tarefa impensável àquela altura da noite com a mente prenhe de problemas
insolúveis. Esperar a vontade de dormir chegar, já não dá.
E o maldito relógio parece haver travado. Os
ponteiros, inda há pouco céleres, parecem ter me furtado o sono e resolveram
entregar-se, eles próprios, a Morfeu.
Lembro de um velho bolero em que o autor
implora que o relógio não ande. Como queria quebrar esse disco nesse instante,
pois parece que as deusas gregas filhas de Zeus e Têmis resolveram acolher o
pedido infame.
De repente, duas frases vêm-me à lembrança e
me aquietam. O relógio, como em mágica, volta ao ritmo normal e resoluto decido:
sim, olharei os lírios do campo e complicarei menos, atendendo às recomendações
de Jesus e da banda Titãs.
Mas isso me traz uma nova linha de pensamento
que puxa outros mis e como vagas infindas no mar revolto, vêm e vão, vão e vêm
em movimento interminável.
Trabalho, empregados, obra, processo, prazo,
tarefa inconclusa, atendimento, reunião, a parede com revestimento solto, o
preço do material, o volume das vendas, a promoção, o salário, o vale
transporte, o leite, a casa, o veículo, tudo corrói o sono eficazmente.
O silêncio é profundo lá fora. Só resta o soar
da sirene da moto do vigia noturno a justificar o pagamento que lhe fazem os
moradores das cercanias e os insetos que rompem o silêncio sepulcral da
madrugada que já vai alta.
O breve cochilar não afasta o ardor dos olhos,
o qual o médico atribuiu a dormir de olhos abertos. Antes, pudesse dormir, penso
eu com meus botões.
É quase inverno. Mesmo as quatro estações
conspiram contra mim. Preocupo-me com elas.
Até o barulho do roçar no travesseiro dos
pelos da barba feita horas antes - mas já apontando – perturba-me e me leva a
pensar nas misérias impostas ao clima. Teria gastado água demais para fazê-la?
Impressionante como o pensamento vagueia entre
centenas de caminhos curvilíneos e desconexos!
Lá fora, parece chover e as ideias viajam
céleres.
Como podem os responsáveis pelo sofrimento
alheio e pelos graves desajustes do clima recostarem as suas cabeças e serem
alcançados pelo sono tranquilo e eu, não?
Olho pela milésima vez o relógio no alto da
tela do telefone. O aplicativo do tempo e do clima me informa que em meia hora o sol irá raiar.
Finalmente, o sono me vence, mas, em instantes,
é hora de despertar.
Oito dias após a grandiosa procissão fluvial de Bom Jesus dos Navegantes nas águas do Velho Chico, a sociedade propriaense volta a se reunir. Desta vez, o encontro transcende o sagrado para abraçar, de forma discreta e respeitosa, o profano: é o dia da derrubada do mastro nos bairros Poeira e Matadouro. O evento anuncia o Carnaval e, embora a cidade hoje não dispute o vulto carnavalesco da vizinha Neópolis, mantém viva sua essência singular.
Propriá se transforma. Se no calendário civil o ano já caminha para o seu segundo mês, para o propriaense a vida só recomeça após esses testemunhos de fé e cultura. Como narram os mais antigos, a derrubada do mastro e o cortejo pelas ruas não são apenas ritos festivos; o mastro, em tese, representa o próprio Bom Jesus, um símbolo centenário que carrega a história da gente ribeirinha. Um elo marcante dessa tradição é a dança das mulheres ao redor do mastro sob o som da banda de pífano: o bailado que se vê na noite solene da missa do mastro repete-se agora, com o mesmo vigor, no momento da derrubada. Entre goles de batida de tamarindo (ou "tamarina", na variante regional) e o banho refrescante do carro-pipa, o devoto se faz folião.
Cada mastro da cidade possui sua peculiaridade, mas o do bairro Poeira se destaca pela tradição de percorrer as ruas ao som da Filarmônica Santo Antônio. É um desafio ímpar e uma marca registrada: sem esse cortejo, a festa parece incompleta. É um momento de profunda emoção, especialmente para os idosos que, impossibilitados de sair, veem a festa chegar às suas portas. Impossível não recordar figuras como o saudoso senhor Gato Seco, cujos olhos se enchiam de lágrimas ao ver o mastro passar.
O Poder Público e as organizações culturais precisam olhar para este momento com o devido zelo. A festa não se encerra na missa campal da Catedral; ela pulsa até o retorno do Bom Jesus à sua capela. Preservar essa tradição é garantir que o coração de Propriá continue batendo forte. Viva a cultura propriaense!
Cleno Vieira é licenciado em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), membro do Centro de Cultura de Propriá (CCP) e acadêmico na Cadeira nº 20 da Academia Propriaense de Letras, Ciências, Artes e Desportos (APLCAD), onde atualmente é o secretário-geral.
O escritor, presidente do @ccpria.se e Coordenador da Flipriá (Festa Literária de Propriá) participou da mesa do IV Intercâmbio Cultural Barbalha/CE e Propriá/SE no auditório da Codevasf, dia 24 de janeiro de 2026 com.
Em sua fala, agradeceu ao convite recebido do Coordenador, o professor Alberto Amorim e enalteceu a importância daquele momento. Depois que os demais componentes proferiram as suas opiniões, a palavra foi franqueada para o professor Dr. Jozier Ferreira.
O professor Jozier contextualizou como se deu os primeiros contatos com Alberto Amorim, à época presidente do CCP, o poeta Rossi Mágne e o acadêmico Erasmo Lopes sobre as pequisas realizadas sobre a região do Baixo São Francisco e como elas o levou até Propriá.
Em seguida, expôs a História de forma clara e simples do processo de migração de cidadãos propriaenses até às paragens que deram origem à cidade de Barbalha.
Mostrou, também, que o nome do padroeiro Santo Antônio, homenagem de Luiz Gonzaga e outros fatos não eram pura coincidência, mas evidências que contam e integram a História entre as duas cidades.
Estiveram presentes Franklin Ribeiro Magalhães, Presidente da Aplcad e Tesoureiro do CCP, Helenice Reis, presidente da ALVP, Irinéia Borges e outras membras dessa academia, o ex-prefeito Iokanaã Santana, os poetas Cleno e Ruan, membros do CCP e da Aplcad, Jorge, da União Beneficente, pe. Klebson, o bisbo de Propriá e demais convidados, além da comissão de Barbalha.
O intercâmbio foi encerrado pelo Bispo Dom George Muniz, demonstrando interesse pelo evento e a importância que tem para Propriá.
A esquerda, Alberto amorim. Na sequência Dom George Muniz,
FLIPRIÁ 2025 reuniu estudantes, educadores e escritores do Baixo São Francisco Sede da AABB, Propriá, SE.
📚 A 4ª edição da Festa Literária de Propriá (FLIPRIÁ 2025) foi muito mais do que uma celebração da literatura e da cultura sergipana. Idealizada e coordenada desde a primeira edição pelo escritor Ron Perlim, a Festa consolidou-se como um espaço potente de reflexão crítica, trazendo ao centro um dos debates mais urgentes da atualidade:
Fake News, Desinformação e Redes Sociais
Realizada em Propriá (SE) pelo Centro de Cultura de Propriá, a FLIPRIÁ reafirmou o poder da palavra como instrumento de consciência social, diálogo e transformação.
🎓 Homenagem Especial
A edição de 2025 prestou uma justa e emocionante homenagem ao professor Claudomir Tavares, reconhecendo sua contribuição inestimável para a educação e para a cultura local. Um tributo que reforça o compromisso da FLIPRIÁ com a valorização do conhecimento e de quem o constrói diariamente.
🧠 Um Tema Necessário para o Nosso Tempo
A programação da FLIPRIÁ 2025 foi cuidadosamente pensada para aprofundar as múltiplas dimensões da desinformação no mundo contemporâneo. A escolha do tema central demonstrou a maturidade e a responsabilidade social da Festa Literária ao enfrentar desafios do presente.
A literatura foi apresentada como:
📖 Ferramenta de letramento midiático
🛡️ Instrumento de resistência intelectual
🌱 Caminho para a formação de leitores críticos e conscientes
🎤 Debates que Ecoaram Além do Evento
Os painéis e rodas de conversa reuniram escritores, jornalistas, educadores e especialistas em comunicação. As discussões tiveram grande repercussão e foram amplamente compartilhadas nas redes sociais, especialmente no Instagram oficial do evento (@flipria.se).
💬 “O combate à fake news não é apenas sobre checar fatos, mas sobre construir um senso crítico na base, na escola, para que o leitor se torne um cidadão letrado, capaz de discernir a verdade no ruído da desinformação.” — Destacou um dos debatedores
📌 Ideias-Chave dos Encontros
📖 A Literatura como Vacina
A boa literatura e a poesia foram apontadas como verdadeiros antídotos contra a simplificação do pensamento, promovendo empatia, profundidade e reflexão — elementos essenciais para enfrentar a desinformação.
📰 O Desafio da Credibilidade
Jornalistas presentes discutiram os obstáculos de manter a confiança do público em um ecossistema de comunicação acelerado, reforçando a importância da ética profissional e da educação para a imprensa livre.
🤝 Impacto Social e Comunitário
Mais do que palestras, os encontros promoveram trocas genuínas sobre os impactos da desinformação:
🏥 Na saúde pública
🗳️ Na democracia
💬 Nas relações interpessoais
A FLIPRIÁ mobilizou a comunidade de Propriá e região para uma participação ativa e consciente no debate público.
🌟 Um Legado que Permanece
A FLIPRIÁ 2025 encerrou-se com a certeza de ter cumprido um papel fundamental: provocar o pensamento e fortalecer a resistência cultural. O sucesso do evento, marcado pela expressiva participação de estudantes e do público em geral, evidencia o desejo da comunidade por debates qualificados e comprometidos com a verdade.
Ao homenagear o professor Claudomir Tavares e colocar a desinformação no centro do debate, a FLIPRIÁ consolidou-se como um farol cultural e agente de transformação social no Baixo São Francisco.
📚 A mensagem que fica: munidos de livros e de um senso crítico aguçado, é possível navegar — e resistir — aos mares revoltos da era digital.
📲 Acompanhe a FLIPRIÁ nas Redes Sociais
👉 Instagram oficial da Festa Literária de Propriá e do Centro de Cultura de Propriá (CCP: @flipria.se e @ccpria.se
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A Festa Literária de Propriá foi realizada no dia 29 de novembro de 2024. Coordenada pelo escritor Ron Perlim e Realizada pelo Centro de Cultura de Propriá (CCP), SE teve como tema: Literatura, apagamento e invisibilidade no Baixo SãoFrancisco, sendo homenageado o Prof. Mário Roberto, que foi membro e um dos cofundadores do CCP.
O Objetivo do evento é valorizar, divulgar os escritores do Baixo São Francisco que tem como cidade polo Propriá e as cidades circunvizinhas do estado de Alagoas
para que as pessoas compreendam a importância da leitura. A programação é bastante diversificada, contendo atividades de formação na área do livro leitura para os alunados do Ensino Fundamental e Médio, professores e demais interessados.
Ruan Vieira é um exímio bailarino das palavras. A poesia, sua sapatilha, lhe calça muito bem. “Estou farto do lirismo comedido”, publicado pela Mondru Editora, é um grito de basta à poesia que se preocupa mais com a forma do que com o conteúdo; à poesia que prioriza mais a métrica e a estética do que o sentimento. Reunindo diversos poemas, alguns deles, por meio da intertextualidade, dialogando com textos de autores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa e Paulo Leminski, Ruan vai traçando um caminho poético que capta, com sensibilidade e habilidade, a poesia presente no mundo, no dia a dia, em cada momento experimentado.
O primeiro texto que inaugura o livro, intitulado “Poesia de Cada Dia” , é uma espécie de “testamento” do que a obra do jovem poeta sergipano propõe. Ruan defende a ideia de que a poesia, mais que uma arte, é um sentimento humano e, portanto, está presente em todos os ambientes e todas as pessoas são capazes de poetizar as suas vidas, quebrando a lógica da poesia como um exercício essencialmente acadêmico ou especializado. É nesse ínterim, que ele exalta a poesia livre das amarras da gramática e das regras que tornariam, aos moldes parnasianos, um poema belo e perfeito. “Fique com a Sintaxe da Gramática e me deixe com a Semântica da Poesia”, asseverou.
Os poemas-paródias de Ruan são resultados de uma genialidade única. “No meio do caminho, um passarinho”, recuperando a máxima drummondiana, é um hino à liberdade (daí o passarinho), que a pedra de Drummond impossibilitaria. “Oração ao vento”, paródia da música “Oração ao tempo”, de Caetano Veloso, é um dos meus prediletos. Cantando ao vento, o poeta chama um amigo, pedindo sua suave ou intempestiva presença em sua vida e no movimento dos destinos. Li cantando.
Utilizando recursos como metáforas, ironias e versos livres, sob fortes influências literárias e musicais, nasce uma poesia que aborda questões existenciais, tais como a infância em “Aurora da minha vida”, a presença e importância da figura materna em “Minha mãe é uma semideusa”, a existência divina, à la Nietzsche, em “Paradoxo do divino”, a traição em “O beijo de Judas” e o patriotismo genuíno em “Canto a minha terra”.
Mas a poesia de Ruan não termina por aí. Há também alguns poemas com forte teor erótico, alguns mais explícitos que outros, como em “Sem nem sequer saber de poesia”, onde o eu lírico afirma que conhece (“viajou”) o corpo da amada, evidenciando que o ato sexual, ou melhor, transar, também é uma forma de se fazer poesia, a arte de cantar/fazer o amor.
São muitos os poemas que compõem a obra do jovem poeta sergipano e este texto não daria conta de destrinchar cada um deles. Selecionei aqueles que me tocaram mais fortemente. E encerro com o poema-paródia “Tecendo o texto”, uma canção do fazer poético, que reflete a clareza de Ruan, volto a dizer, como um bailarino das palavras, que sabe conduzir e construir, palavra por palavra, verso por verso, significados, sentimentos, verdades inauditas. “Uma palavra sozinha não tece um texto: ela precisará sempre de outras palavras”.
Precisaremos sempre, mais e mais, da poesia de Ruan, que só ele sabe tecer.
Nota biográfica:
Matheus Kennedy é Graduado em Letras-Português pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Foi pesquisador-bolsista pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC - Fapesq/UEPB) durante 2021 a 2023. Mestrando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Formação de Professores (PPGFP/UEPB).
Em 2020, foi um dos fundadores do Debate na Mesa, permanecendo até hoje na equipe.
A
professora de português vivia dando nota baixa nas redações que aluna escrevia.
O pai, um escritor consagrado, resolve dar uma ajudinha à filha para evitar que
ela repita o ano.
Segue
crônica de Carlos Heitor Cony, publicada no longínquo 30 de outubro de 1998 no
caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo.
O
PÔR-DO-SOL DA FREIRA
O
Premiado no Brasil e no estrangeiro, coberto de glórias literárias e sociais,
ele chegou à sua casa e encontrou a filha em prantos. Dizia-se desgraçada,
queria se matar. Contou o seu drama: estava ameaçada de levar bomba em
português. Autora das piores redações de todo o ano letivo, a madre-professora
dera a chance: ou fazia uma composição decente que redimisse os erros
acumulados durante o ano, ou ficava sem média para os exames. E ela - que
brilhara em matemática, que ganhara o prêmio de viagem a Mataripe pela melhor
nota em geografia, que era autoridade em Renascença e em Guerras Púnicas -
sentiu o gosto da bomba a caminho.
“Uma
humilhação!”, berrou o pai no meio da sala. Um homem traduzido em copta, em
servo-croata, editado pelo MacMillan, amigo do García Márquez e do Saramago,
patrono de escolas, nome de biblioteca no Recife, ter uma filha ameaçada de
bomba em redação! Uma vergonha! A filha enxugou as lágrimas. Ferido no orgulho,
o pai quebraria o galho. E, para começar, quase quebrou a sopeira que vinha da
cozinha. “Suspendam o jantar! Vou fazer uma redação para minha filha! Quero ver
o que essa freira de...” A filha gritou: “Papai!”. Mas ele estava possesso:
“Quero ver o que essa freira de merda vai dizer da minha composição!”. Quando o
pai atingia o palavrão, é que o negócio estava preto mesmo. E tão preto estava
que todo mundo começou a pisar na ponta dos pés, em respeito à concentração do
chefe da casa que se trancara no gabinete. Fera enjaulada, ele procurou se
acalmar. No fundo da estante mantinha um pequeno bar. Desde que o médico o
proibira de beber, ele levara para o sacrário da casa algumas bebidas, lá
imperava sem dar satisfações a ninguém, principalmente à mulher, que o
controlava com ferocidade.
Foi
lá, escolheu o melhor uísque, que reservava para os grandes momentos, quando
precisava enfrentar formidáveis desafios. Tomou uma talagada generosa e logo
outra para consolidar. Limpou com energia a mesa, varejou papéis velhos, abriu
o computador. Mas reconsiderou. Não, nada com o computador, muito frio e
profissional. Foi nos guardados e apanhou a caneta de estimação, uma velha
Parker rombuda, a mesma com que escrevera seu maior êxito de venda e crítica.
Aquela pena fora elogiada por William Faulkner e por John dos Passos. Só então
descobriu que não sabia sobre o que deveria escrever. Abriu a porta e berrou
para a sala: “Qual é o tema?”.
“Pôr-do-sol,
papai.” Antes de fechar a porta, descobriu que tinha mais um excelente motivo
para esculhambar com a madre. Ora essa, o mundo mudara, o Muro de Berlim caíra,
estávamos às portas do novo milênio, e vinha uma freira anacrônica impor à
juventude dos anos 90 um tema daqueles, de tempos parnasianos e ultrapassados!
Mesmo assim, não teve alternativa. Separou duas laudas do melhor papel de seu
estoque, começou a primeira frase, mas estancou: na parte superior da lauda
estava o seu nome, com o monograma da Academia de Letras a que pertencia.
Procurou pelas gavetas, não encontrou outro tipo de papel, teve de gritar mais
uma vez pela filha, que lhe passou um papel almaço pautado. Havia séculos não
escrevia num troço daqueles. Alisou-o com alguma raiva, mas teve vontade de
cheirá-lo. Sim, cheirava ainda como os papéis almaços de antigamente. Tudo
aquilo lhe pareceu de bom agouro. Tacou um pôr-do-sol caprichadíssimo, pleno de
tintas sangrentas no horizonte, pássaros fatigados que se recolhiam antes que as
trevas chegassem. Esparramou suspiros de lagos plácidos que anoiteciam.
Lembrou-se de todos os pores-do-sol que vira em velhas folhinhas de armazém,
ressuscitou deslumbramentos de sua infância, inventou uma pradaria, depois uma
charneca, ficou em dúvida: não sabia a diferença entre uma pradaria e uma
charneca, na verdade, nem sabia ao certo o que era uma charneca.
Vencendo
com destemor estas e outras dificuldades, em menos de meia hora as 30 linhas
estavam cumpridas. Releu em voz alta para si mesmo, foi severo na revisão,
substituiu um “profundamente” por um “essencialmente”, alterou a regência de um
verbo e deu por limpa e acabada a prova. Chamou a filha: “Copie com sua letra
agora! Vai ser barbada!”.
Os
eventos da noite trouxeram esquecimento e paz sobre o assunto. Jantaram, viram
um filme no novo canal da TV a cabo, a filha mais velha, recém-casada, apareceu
na visita de todas as noites, finalmente foram dormir. O homem acordou ao
meio-dia, com outro bode armado na sala de baixo. Sob as cobertas, distinguia o
choro da filha e as vozes abafadas que a consolavam. Desceu de pijama mesmo. “O
que está havendo nesta casa?”A filha correu para ele, os braços abertos:
“Papai, a freira deu bomba no senhor! Quatro!”. E o pai, traduzido em
servo-croata, editado pelo MacMillan, amigo do García Márquez e do Saramago,
deu um uivo. Rolou pela escada, espumando contra a freira e contra o
pôr-do-sol.
Texto extraido do blog do professor Ernani Terra, doutor em Língua Portuguesa pela PUC-SP, transferido por Cleno Vieira.
No dia 17/07, tivemos o prazer de receber Ronaldo Pereira de Lima (Ron Perlim) — professor, escritor, presidente do Centro de Cultura Colegiense e do Centro de Cultura de Propriá, idealizador da FLIPRIÁ e autor de obras como “Laura” (Prêmio Alina Paim – 2010), “Viu o home?” e “Chico: o Velho”.
A reunião teve como pauta a contribuição do campus na IV edição da Feira Literária de Propriá (FLIPRIÁ), que acontecerá nos dias 26 e 27 de setembro, na sede da AABB. 📖 📌 Tema da edição 2025: Fake News, Desinformação e Redes Sociais.
Durante o encontro: ✅ Confirmamos a participação do professor Rômulo Gomes (História/IFS), também artista plástico, em um dos momentos da programação; ✅ Dialogamos sobre a trajetória da FLIPRIÁ e sua importância para a cultura e educação local; ✅ Reforçamos o apoio do IFS com logística, divulgação e presença dos nossos estudantes; ✅ Falamos sobre futuras parcerias em projetos culturais e educacionais; ✅ Apresentamos a biblioteca e a Cordelteca do campus, espaços abertos à comunidade; ✅ E recebemos, com carinho, dois exemplares do livro “Muritaê”, escrito por Ron Perlim e Nhenety Kariri-Xocó — obra que resgata memórias e tradições do povo Kariri-Xocó, contadas sob o olhar de um jovem curioso.
Participaram da reunião: 👨🏫 Prof. Luciano Mendonça (Diretor-Geral) 📚 Alexsandra Aragão (Bibliotecária) 👨🏫 Prof. Rômulo Gomes (História) 👨🏫 Vitor Vilas Bôas (COAE/Gerente de Ensino Substituto)
💬 Um momento de troca riquíssima sobre literatura, cultura e educação!
Abertura do Centro de Cultura de
Propriá: Uma Boas-Vindas à Oficina
Olá
a todos! Eu sou o presidente do Centro de Cultura de Propriá (CCP) e quero
expressar minha gratidão pela presença de cada um de vocês. O
Centro de Cultura Dear existe há quase 15 anos e nosso principal
objetivo é justamente proporcionar o tipo de experiência que vocês
estão vivenciando agora: aprender técnicas e processos de
elaboração.
Agradecimentos Especiais
Gostaria
de agradecer imensamente à professora Kelmen pela sua
compreensão e dedicação.
Também
estendo meus agradecimentos à Alaíde Costa, uma profissional renomada
de Aracaju, que se dispôs a sair de casa e nos prestar este valioso
serviço. Somos extremamente gratos por isso.
Participação e Aproveitamento
Além
disso, quero mencionar que temos algumas prestações literárias
em andamento, e alguns de vocês já tiveram a oportunidade de
participar.
Por
fim, espero de coração que vocês aproveitem ao máximo esta
oficina. Tirem todo o proveito possível e absorvam o máximo
de conhecimento que puderem.
Apresentação feita por Carla Emanuelle, Presidenta da ACALA e da UBE/Arapiraca: "Visto que Maria José Barbosa está perto de um grande amigo que sempre atualiza Sergipe em Alagoas e ele fica sempre escrevendo, filosofando, é um grande, posso dizer assim, avaliador literário, cronista, contista, uma inspiração. Fica à vontade, Ron Perlim, para que possa fazer a sua participação."
Ron Perlim
Saudação e Agradecimentos: "Olá pessoal, é um prazer estar com vocês aqui. Quero agradecer a Carla por ter organizado esse evento, é uma satisfação muito grande. Eu estou aqui me alegrando com os textos que foram narrados por todos vocês. E eu estava sozinho observando, não é, grande alegria que nossa Violeta Sebastiana, muito bom, está participando disso e quero agradecer a você, Carla, por tudo isso."
Sobre a Escrita: "Eu escrevi alguns textos, não sou poeta, minha prática é mais a prosa..."
Recitação (Poesia "Cai a Chuva"): "...mas eu vou recitar aqui um texto, digamos uma poesia, né, de um livro chamado 'Bafômetruxo', ele não foi publicado, né, não sei se dá pra você um texto aqui, o título é 'Cai a Chuva': "Cai a chuva, eu não me lembro mais, vozes poucas, os sonhos desordenados e tudo cai, cai, cai e nada se machuca, mas não passa, os cálculos não caem, não caem no sorriso, não caem outro dia, só chuva cai, fome não cai, aceita não cai, a fome do homem, a fome do mercado."
Agradecimentos Finais: "Compartilhar com vocês e participar desses... legal, gostei muito Carla, está aqui, poder participar com vocês.
Fala de Carla: Parabéns, meu amigo! Gratidão pela parceria! Está fazendo um movimento muito bom em prol do desenvolvimento literário regional. Como sempre, com a gente.
Primeira Festa Literária de Propriá: Valorizando a Cultura e a Literatura Local
0:00 Começa hoje à noite a primeira Festa Literária de Propriá. O evento tem o objetivo de valorizar e divulgar a literatura e a cultura da região. Além disso, acontece justamente no mês em que se comemora o Dia da Literatura Sergipana, data instituída através de uma lei aprovada na Alese e celebrada em 26 de novembro.
0:21 Quem traz os detalhes pra gente da programação é o Ronaldo Lima, coordenador da Festa Literária. Boa tarde, Ronaldo, seja bem-vindo ao Jornal Segunda Edição.
0:32 Boa tarde, Denise, é uma satisfação muito grande estar aqui e poder bater esse papo sobre a Flipriá.
0:41 Nós que agradecemos a sua presença, Ronaldo. Vamos começar falando então dessa programação que começa hoje à noite, é uma programação bem vasta que vai muito além da literatura, né?
0:53 Isso. Hoje à noite, eh, começa, que é o dia 10. A programação ela inicia com a execução do Hino Nacional através de uma banda de pífano. Na sequência vai vir uma, uma apresentação teatral com o grupo Carrancas, né, que é daqui de Propriá. Aí haverá palestras, haverá exposição de artes de dois artistas: um de Porto Real do Colégio, que é cidade vizinha a Propriá, chamado Rôndone Ferreira, e o outro é David da Silva dos Santos, que é de Propriá. E na sequência, após essa, essa, essa exposição de artes, a feira de livros é aberta para o público de um modo geral e autores irão trazer, né, suas obras para poder participar do evento.
1:53 Esse evento ele, ele fomenta e estimula, claro, né, o gosto pela literatura, a própria formação e a literatura local. Estimula que as pessoas também sejam, né, aí escritores. Acho que envolve uma série de coisas.
2:11 Isso. O principal objetivo dessa feira de livros é justamente focar não só na cidade de Propriá, mas a cidade de Propriá é uma cidade polo. Ela, em torno dela, giram não somente as cidades circunvizinhas, mas também do estado de Alagoas. Umas três ou quatro cidades giram em torno dela. Então, o objetivo mesmo é, é, é trazer para o público de um modo geral a produção literária que acontece nessa região do Baixo São Francisco. Esse é o principal objetivo da Flipriá. E lembrando que a Flipriá é uma realização do Centro de Cultura de Propriá.
3:00 E para o público, né, essa abertura, esses dias de evento, a participação das pessoas é essencial e o acesso é gratuito.
3:10 Isso, o acesso é gratuito. A nossa programação, ela é bem diversificada. Por exemplo, nós teremos, eh, um palestrante que é indígena Xocó da Aldeia Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio. A gente vai ter uma quilombola também no evento para falar, né, sobre a violência e preconceito contra as religiões de matriz africana. Nós teremos um, um escritor já bem conhecido em Sergipe, Antônio Francisco de Jesus, o Saracura, que ele vai debater mais uma professora chamada Professora Tânia sobre a importância da literatura, eh, feminina em Sergipe. Também nós vamos ter o Dr. Ulisses, né, que se eu não me engano é Desembargador, vai estar aqui presente. Vai ter contação de histórias para as crianças do público infantil juvenil. Haverá recitação poética. Haverá o resgate da memória de cordelistas daqui da região, principalmente de Propriá, vai ser com Gabriel Lemos e Conceição Feitosa. Haverá lançamentos de livros, né?
4:29 Viu, eh, Ronaldo, eu queria agradecer muito a sua participação aqui com a gente por trazer, né, essas informações sobre esse evento e desejar, claro, um ótimo evento para todos vocês aí de Propriá e região.
4:42 Eu aqui agradeço a oportunidade de poder falar desse evento. É o primeiro, mas a gente acredita que vai se estender por muito tempo porque é como eu falei anteriormente, o objetivo da gente é fazer com que as pessoas entendam, compreendam a importância do livro mesmo diante de tanta tecnologia.
A série Diálogos é mantido pelo programa Debate na Mesa, que é um grupo de universitários que discute sobre temas diversos que envolvem a sociedade brasileira. O tema debatido do qual participei, foi: Comércio Eleitoral de Base e as movimentações políticas para 2026.
Quero agradecer a Ruan Vieira pela indicação. Agradecer também a todos os que fazem o programa. Muito Obrigado.
Boa Noite e Agradecimentos Iniciais
0:00 Boa noite, Bianca, e a todos que chegam à nossa transmissão ao vivo nesta quarta-feira, dia 9 de abril. Estamos entrando ao vivo. Boa noite, Anderson, que acompanha a transmissão. Primeiramente, quero agradecer a presença de vocês aqui conosco e dizer, como o Ron comentou há pouco, que essa live ficará gravada em nosso feed. Assim, quem não puder acompanhar ao vivo terá a oportunidade de assistir depois. Da mesma forma, alguns recortes de comentários que geralmente fazemos serão disponibilizados paulatinamente ao longo desta semana.
Início da Transmissão e Apresentação dos Convidados
0:44 Para não nos estendermos demais e respeitando o horário combinado, 7:30, vamos iniciar nossa transmissão. Primeiramente, dou boa noite aos nossos convidados, Anderson e o outro convidado que gentilmente aceitaram nosso convite para esta transmissão, e também a quem nos acompanha ao vivo.
1:11 O tema da nossa conversa hoje é sobre comércio eleitoral de base com Perlim, que irá comentar sobre essa ideia, tecer alguns comentários e as movimentações políticas do cenário político do nosso país, principalmente pensando no ano eleitoral vindouro de 2026.
1:30 Antes de passar a palavra para o Ron, que vai começar a discutir, eu queria fazer uma breve apresentação dos nossos convidados para que as pessoas que vão nos acompanhar posteriormente e que estão nos acompanhando agora possam saber quem são.
Perlim
1:45 Perlim é professor, escritor e blogueiro. Ele iniciou seus escritos aos 18 anos, é pós-graduado em Educação Matemática pela Faculdade Atlântico Sergipe, é presidente do Centro de Cultura Colegial, Presidente do Centro de Cultura de Propriá, idealizador da Festa Literária de Propriá. Foi colunista do site Tribuna da Praia e colaborou com a revista Óbvios.
Anderson Pires
2:09 Anderson Pires é formado em Comunicação Social e Jornalismo pela UFPB. Ainda como estudante, foi primeiro tesoureiro e diretor de comunicação da UNE, a União Nacional dos Estudantes. Como publicitário, fundou a Signo Comunicação em 2000, hoje SIGN Inteligência e Marketing. Foi responsável por contas importantes no governo federal, como a da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Na Paraíba, já atendeu a contas de importantes prefeituras e do governo do estado. No marco político eleitoral, comandou e direcionou a criação de diversas campanhas no Brasil. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de João Pessoa e membro do Conselho Nacional do Senac. Escreve regularmente textos de opinião para os portais Pragmatismo Político e Termômetro da Política, e é autor do livro "Ele Não Vai Gostar de Ler".
Comércio Eleitoral de Base e Seus Prejuízos à Democracia
3:01 Mais uma vez, obrigado pela presença de vocês dois. Eu queria direcionar a palavra para o Ron, inicialmente perguntando justamente sobre o que é o comércio eleitoral de base que você tece comentários a respeito e, em sua percepção, quais são os prejuízos para a nossa democracia a partir dessa ideia.
3:29 Boa noite a todos, é um prazer estar aqui, poder compartilhar minhas reflexões sobre o tema abordado. Bem, qual seria esse comércio de base?
3:47 Todos nós sabemos que as eleições, todas elas, se iniciam no município. E por começar nos municípios, ela tem toda uma estrutura. Dentro dessa estrutura, existem os grupos políticos que têm suas ramificações. As ramificações que eu falo aqui, um candidato tem alguém que apoia, pode ser um cabo eleitoral. Aliás, é o cabo eleitoral, mas esse cabo eleitoral pode ser o presidente da associação, pode ser um ex-vereador, pode ser um ex-prefeito, pode ser o líder de um bairro, enfim.
4:37 Dentro dessa estrutura, dentro de tudo isso aí, acontece algo que não é novo, mas que é pouco debatido: que é o comércio eleitoral. O comércio eleitoral é um conjunto de elementos que eu geralmente classifico em favores, a compra de voto (em espécie mesmo), mas compra de voto. O cidadão chegar lá, o candidato, através das suas ramificações ou ele próprio, chega na no eleitor e compra, e tem outros elementos dentro desse comércio aí.
5:24 O que é que acontece? Acontece que a eleição, a eleição partindo da base que é o município, ela deixou de ser aquela parte que a Constituição fala que "o poder emana do povo". Aquilo é uma ilusão, é imaturo reivindicar essa frase que está na Constituição, justamente porque esse poder que emana do público ele foi corrompido, e por ser corrompido, o voto se tornou e passou a ser uma simples mercadoria.
6:23 Então, hoje, o eleitor deixou de ser aquele cidadão que iria dignificar o seu voto e aquele que o representaria. Aí, vamos entrar na questão: quais são as consequências disso? As piores possíveis. O maior exemplo que a gente pode ver hoje é dessa captação do voto. O voto, como um bem que deveria ser intangível, passou a ser tangível no sentido de compra mesmo.
7:08 As consequências, a gente vê um congresso irresponsável que a gente vê aí nos dias atuais. Isso não só a nível federal, porque esse comércio ele reflete tanto a nível estadual como a nível federal. Por quê? O que acontece dentro de tudo isso: pessoas já perceberam e estão fazendo disso investimentos grandes, grandíssimos investimentos. Então, eles saem nos seus estados, aqueles que têm muito dinheiro, e começam a criar suas ramificações nos municípios e começam a eleger elementos que vão obter suas vantagens, não somente vantagens pessoais, mas econômicas.
8:13 E com isso, eles estão bem entranhados na sociedade de uma forma que esse assunto, penso eu, precisa ser mais discutido, mais debatido em todos os níveis: acadêmico, na sociedade do bairro, dentro da igreja, enfim, em todos os espaços que for possível. Porque, se assim não for, a coisa já não está boa, vai se tornar pior.
8:48 E eu quero dar um exemplo aqui. Minha esposa, ela é professora do ensino fundamental. Certo dia, ela chegou em casa, estava conversando comigo, e disse: "Ronaldo, eu escutei hoje de uma aluna minha, isso era uma criança de uns 5 anos por aí, chegou feliz, felicíssima, para ela e disse: 'Tia, esse óculos é da política!'"
9:26 Então, por aí vocês vejam como é que a coisa ela está bem entranhada dentro da sociedade, a partir do do do contexto da família. E com aquilo, aquela criança vai crescer com aquela ideia de que para eu votar, eu tenho que trocar o meu voto, eu tenho que vender o meu voto. Então, parece aquela coisa naturalizada, é a naturalização do comércio eleitoral, como tem algumas pessoas que, infelizmente, vivem propalando dizendo que isso é cultural, quando na verdade não é cultural. E as consequências disso, como eu já disse anteriormente, elas são devastadoras. O maior, o as coisas que a gente vê com muita clareza aí é sobre a questão da corrupção escancarada, a omissão, serviços públicos de má qualidade em todos os sentidos.
Emendas Parlamentares e Falta de Transparência
10:45 Eu queria até, pensando nessa, nesse seu comentário, a respeito de uma questão que eu acho presente: é a questão das emendas parlamentares, principalmente no que tange a questão da falta de transparência ou de rastreabilidade, que é muito debatido nos últimos anos, principalmente no que se refere ao Congresso Nacional, para os estados e prefeituras, como você falou, que é a base eleitoral desses parlamentares, onde ocorre toda essa movimentação política. A gente tem um sistema eleitoral que, praticamente, tem eleições a cada dois anos, sendo eleições municipais e depois gerais. Essa movimentação, os deputados fazem as bases de prefeitos e vereadores nos seus municípios para, dois anos em seguida, cobrar apoio dado ao pleito anterior aos prefeitos eleitos, seus vereadores, enfim, ter cabo eleitoral ali para girar o voto. Eu queria saber como é que você enxerga essa questão das emendas, principalmente dessa questão da necessidade de transparência e rastreabilidade dos casos de corrupção que emanam a partir dessas questões envolvendo as emendas parlamentares à luz dessa ideia do comércio eleitoral.
12:10 Então, veja só. Eu costumo dizer que os políticos eles não são eleitos por si, ou seja, eles são eleitos não por conta própria. Pessoas não escolhem, a maioria não escolhe, a maioria vai para quem dá mais, para quem pagar. E o resultado disso, o que é? O cara é candidato a deputado federal, gasta milhões para ser eleito, né? Como eu já falei, aqueles milhões que ele gasta para cada município, e lá distribui para as suas ramificações.
13:07 Dentro desse contexto, sendo eleito, ele ele vai para o Congresso, e o que é que ele vai fazer no Congresso? Ele vai fazer política que vá favorecer a ele e aqueles que o patrocinaram, porque nem sempre o candidato é eleito com o seu próprio dinheiro. Existe uma situação que, às vezes, o cara tem como ser eleito com seu próprio dinheiro, mas tem situações que não, ele precisa também do dinheiro de terceiros. E dentro desse contexto, dentro de tudo isso, ele vai lá no Congresso e ele vai trabalhar para favorecer os seus interesses. Os interesses da população ficam para trás. Não há, não há aquela coisa, aquela, aquela coisa de "ah, eu vou para lá, vou trabalhar para o povo". Não, porque eles já sabem, eles têm consciência disso. Infelizmente, a maioria do povo ainda não se deu conta desse problema, não se deu conta. E é um problema que precisa ser bastante discutido.
14:40 Dentro desse contexto, entra essa questão da emenda parlamentar, que é uma coisa vergonhosa, né? Alguém querer o dinheiro público, dinheiro que não sai do bolso dele, e não quer que aquele dinheiro seja transparente. Mas por conta desse comportamento, existe tudo isso que eu falei anteriormente. Por quê? Eu comprei o voto, satisfação a você, eu dou quase nenhuma. E é desta forma.
15:23 É preciso, é, é preciso que o eleitor brasileiro ele passe a se compreender como eleitor, como cidadão. A partir do momento que ele fizer isso, ele, ele passar a se compreender, aí a gente vai ter uma compreensão maior da movimentação política dos partidos políticos e de candidatos diferenciados. Enquanto isso não vem, vai ser sempre essa, essa, essa, esse tipo de narrativa, muito exposta pela grande mídia e pela mídia alternativa, enfim, e por outros meios de comunicação quando se refere à política.
16:21 Política urgente, né, parte da sociedade, né? Enquanto não houver isso, muito pouco vai poder ser avançado, né, em várias, em vários aspectos, né, da sociedade brasileira.
Cenário Político e a Direita Brasileira em 2026
16:33 Obrigado. Eu quero agora direcionar a palavra ao Anderson, agora discutindo um pouco mais a respeito das movimentações políticas do país. O grupo, o grupo de oposição ao atual governo Lula 3, né, como tem chamado, pensando no ex-presidente Jair Bolsonaro que está inelegível pelo TSE, Tribunal Superior Eleitoral, né, enfrentando já réu pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de estado, enfim, tudo que a gente já sabe da imprensa nos últimos tempos, né? E um julgamento que pode, ao final, né, depois de transitado, deixá-lo condenado, né? E aí eu queria saber a sua opinião: como é que fica o campo da direita política no nosso país pensando principalmente em 2026, né? Já que a gente tem o principal líder da direita inelegível, não podendo disputar a eleição no ano que vem, quem seria o ungido, o substituto para esse pleito?
17:41 Boa noite, boa noite, Ronaldo, boa noite a todos que fazem esse canal de debate. Olha só, você perguntou especificamente qual será então o, não diria o destino da direita, mas né, do bloco hoje que se formou no Brasil de extrema direita que tem Bolsonaro como principal expoente, né? A primeira questão é lembrar que Bolsonaro já está inelegível, independente deste julgamento. Essa é uma confusão que está sendo feita na sociedade, como se esse julgamento fosse estabelecer a sua possibilidade de ser candidato ou não, né? Então ele não tem essa, essa possibilidade a preço de hoje. Teria que se ter algum tipo de movimentação jurídica ou algum tipo de movimentação política que conseguisse reverter essa situação, o que não parece fácil.
18:36 E aí você pergunta: quem será o herdeiro de Bolsonaro? Existem algumas possibilidades que estão aí colocadas, né, um tanto óbvias como o próprio governador do estado de São Paulo, São Paulo. Acho que tem algum, algum áudio aí vazando. Ouvindo. Alô. Oi. Tudo certo? Tô ouvindo. É, não, acho que estava alto o meu áudio em algum lugar e ele ia e voltava aqui, eu, eu escutava a mim mesmo. É, então, você tem algumas possibilidades de pessoas ligadas ao bolsonarismo, alguns expoentes como o governador do estado de São Paulo. Mas o que é que está claro para mim? Que seja quem for o candidato ou até mesmo o próprio Bolsonaro, existe uma parcela da sociedade que já disse que não votará no PT em condição alguma. E não é algo novo, por quê? A gente tem uma situação agora de polarização, mas essa situação ela sempre existiu, não com esses representantes e não com essa pauta conservadora nem os posicionamentos radicais que o bolsonarismo trouxe para a cena política brasileira.
19:51 Por que é que eu estou dizendo isso? Basta lembrar que o Partido dos Trabalhadores nunca conseguiu eleger um presidente da República em primeiro turno, nem o próprio Lula conseguiu se reeleger em primeiro turno quando tinha uma situação muito mais confortável, né? E, eh, níveis de aprovação, situação econômica do país, eh, projetos em andamento, mesmo tendo tido desgaste no primeiro governo em relação às questões que envolveram o Mensalão, embates que aconteceram com setores da direita. Todo mundo aqui deve lembrar de, de Roberto Jefferson e tudo que aconteceu naquele processo onde, né, aquilo desencadeou uma desestruturação inclusive do próprio PT e de pessoas ligadas ao Lula. Mas era outro cenário, você tinha um cenário de um Brasil ascendente, você tinha um dólar a pouco mais de R$ 2. Nós estamos falando de dólar hoje na casa dos R$ 6, como chegou hoje, deu uma caídazinha no final do dia. Então, mesmo com cenários ótimos, mesmo com o que aconteceu na eleição da Dilma em 2010, que os níveis de aprovação do Lula batiam na casa dos 90%, o PT nunca conseguiu eleger um presidente em primeiro turno. E olhe que o PT esteve, eh, em todas essas eleições que nós tivemos depois da abertura democrática no Brasil disputando em condições de vitória desde a eleição contra Fernando Collor de Mello até a última agora em 2022. Sempre teve PT na jogada.
21:22 E o que é que mostra isso? Que existem esses 50% de brasileiros que não votarão no PT em condição alguma. Qual é o grande, a grande questão que se coloca? É que com o Bolsonaro capitaneando essa direita e capitaneando esta parcela que rejeita um partido de esquerda, que rejeita um governo progressista no Brasil, você abre para pautas que teoricamente deveriam estar enterradas no Brasil, principalmente as pautas que dizem respeito a questões, eh, eh, de valores morais, né, pautas conservadoras de cunho, eh, anti-humanitário. Por quê? Porque a opção por Bolsonaro ela não é exatamente uma opção política, ela é uma opção pela desumanidade. Porque quem disser que optou por Bolsonaro para não votar no PT está mentindo, porque na primeira eleição que Bolsonaro disputou, que seria Lula o candidato, depois ele não pôde porque estava preso e o candidato foi Haddad. Você tinha além de Bolsonaro mais 12 opções de pessoas ou de direita ou dentro desse campo do centro, né, que de alguma maneira iria suprir, vamos dizer assim, ideologicamente os anseios dessas pessoas que hoje dão, dão sustentação para o bolsonarismo. Então, não é verdade que Bolsonaro é uma opção política. Bolsonaro é uma opção pela desumanidade.
22:46 Tanto é que a sua pauta passa longe de questões objetivas que tenham impacto verdadeiro na vida e no cotidiano das pessoas, notadamente os mais pobres. Você não vê nenhum tipo de discussão do ponto de vista econômico, do ponto de vista de projetos estratégicos para o país, de inserção em setores estratégicos dentro do, dentro do, do, da economia global. Não, você vê sempre, né, a discussão de pautas de cunho moral que alimentam só o quê? Que só alimentam preconceitos e rejeição aqueles que representam o antagonismo a isso, que no caso vem sendo capitaneado, né, pelo Lula desde que ele passou a ser um grande agente político no Brasil. Então, o que é que, que eu, que eu quero dizer? O resultado, ele não vai mudar muito se for Bolsonaro ou outro candidato. As próprias pesquisas mostram que a oscilação que se tem entre um governador de São Paulo e o próprio Bolsonaro é muito pequena. E quem não fez, quem não fez opção pelo Lula e está naquele limbo, né, na hora H ele vai fazer a opção que penderá para aquilo que ele tem, vamos dizer assim, mais simpatia ou mais identidade. E muita gente nesse país mostrou que tem identidade com a desumanidade, né, com a opressão, com uma série de, de, de valores que deveriam estar extintos não só no Brasil, mas no mundo.
24:10 É isso, verdade. E é curioso, né, que na, quando você fala que havia outras opções, eh, na eleição de 2018, que não necessariamente seriam o PT, né, eu cito, por exemplo, o caso Ciro Gomes, né, do PDT, e o próprio hoje atual vice-presidente do Brasil, já, né, do então PSDB, que era quem fazia a, vamos dizer, né, a polarização, não nos modos como a gente tem hoje com o bolsonarismo, mas que fazia, que rivalizava o PT até pré-2018, né, na, na, no cenário político nacional, né, que hoje é um partido que está praticamente quase extinto, né, o PSDB.
24:50 Você tinha muitas, muitas outras opções. O Ciro Gomes, eh, necessariamente não entraria, eh, como um grande representante do que é hoje o bolsonarismo, porque ele em alguns momentos se colocava de maneira enfática na defesa de bandeiras contraditórias a isso que esse, que esse pessoal defende. Não que eu considere que o Ciro Gomes seja um político progressista e de esquerda. Em relação ao Geraldo Alckmin, apesar de naquela eleição ele ter tido a maior coligação, tinha o maior tempo de TV, maior estrutura, teve um resultado pífio, né, teve menos de 5% na eleição. Mas ele já carregava uma, uma série de questionamentos de cunho moral em relação à prática do, do PSDB, né, em governos, os quais eles foram acusados de corrupção, a começar pelo seu candidato anterior em 2014, Aécio Neves, que chegou a ser cassado, né?
25:48 É bom, é bom lembrar que o bolsonarismo não surfou só naquilo que representaria o antipetismo, mas também surfou em torno de uma onda moral de descredibilizar a atividade política como se a política necessariamente fosse feita por pessoas mal intencionadas e exclusivamente por pessoas que estavam ali buscando enriquecimento ilícito ou a participação em processo de corrupção. E nessa lógica, o grande, eh, antagonismo que se tem, ou melhor dizendo, a grande incoerência que se tem por parte do eleitor (e a cabeça do eleitor ela está longe de ser provida de coerência), é que muitos daqueles que disseram votar em Bolsonaro por abolir práticas corruptas e algumas práticas criminosas são provavelmente, né, grandes praticantes destas práticas. Por que é que eu digo provavelmente? Porque reincidentemente a gente vem, eh, vendo nesse país corrupto bolsonarista sendo pego, eh, estuprador bolsonarista sendo pego, agressor da mulher sendo pego, né, pseudos defensores do cristianismo dentro da lógica e, e da moral cristã que eles desempregaram, rompendo com esses valores e tendo práticas que não, que não são aceitas pelo, aquilo que eles, que eles mesmos pregam, ao ponto inclusive de ter cristão defendendo pena de morte e armamento da população.
27:09 Então, eh, eh, você tem aí um, um, um cenário que se tornou propício para que essas figuras passassem a ditar qual era o discurso predominante dentro da direita no Brasil. E, e hoje, o setor à direita que sempre manteve uma rejeição muito ferrenha ao PT e aos setores progressistas desse país, tanto é que eu volto a dizer, nunca se conseguiu ganhar uma eleição em primeiro turno com um candidato de esquerda no Brasil, né? Ou melhor dizendo, um candidato progressista, porque em alguns momentos é até radicalismo chamar o PT de esquerda, né? Mas, eh, agora você tem essa esquerda capitaneada pelo aquilo que tem de pior, que não é exatamente uma pauta política, nem uma pauta que você diga que serve para alguma coisa para se construir um país, para se construir um modelo de sociedade.
Perspectivas para as Eleições de 2026
28:10 Está, eh, então, no caso, né, no, no, para você, palpite, uma opinião sua, na eleição do ano que vem, a gente tem a probabilidade de ter o governador do São Paulo Tarcísio.
28:24 Não, eu, eu não estou dizendo que é a probabilidade de ser ele. Eu acho que quem quer que seja, vai ser pau a pau e vai, a disputa vai ser do mesmo jeito como sempre foi, né? Muito provavelmente nós vamos ter o resultado igual a todas as outras eleições que o PT disputou, sabe? Porque o PT nunca conseguiu ter uma eleição folgada nem se eleger em primeiro turno, né? Quem conseguiu se reeleger em, em primeiro turno aqui no Brasil foi Fernando Henrique Cardoso, que inclusive transitava com setores do centro que hoje até têm mais simpatia pelo PT, mas que representava o neoliberalismo, que representava a direita, porém era uma escolha política, não era uma escolha pela desumanização que a gente está vendo hoje no Brasil quando se escolhe alguém que compactua com Bolsonaro.
29:08 E Fernando Henrique Cardoso, vale ressaltar também, acho que surfou, acho não, surfou bastante na questão do Plano Real também, né? Que, claro, a primeira eleição dele teve muito do, do Plano Real como responsável, né? E ele deu, vamos dizer assim, ele deu, ele deu sorte de estar no lugar certo na hora certa, de ter tido o impeachment do Collor, daí Itamar Franco virar, eh, presidente da República, dele estar naquele lugar, né, que teoricamente o alavancou e gerou condições dele ser eleito presidente com muita facilidade, né? Mas no segundo mandato, eh, além de toda a máquina, de toda a estrutura, você ainda tinha um Congresso totalmente, eh, eh, vamos dizer assim, eh, pacificado em torno de uma lógica de compra de voto, porque inclusive para ele poder ser reeleito foi comprada a emenda da reeleição no Brasil, né, um desses escândalos que a gente conhece. Mas que naquele momento a gente vinha com uma cultura tão devastadora de processo inflacionário, de enfraquecimento da moeda, de instabilidade econômica no Brasil, que o povo estava fechando os olhos até para isso, porque algumas condições objetivas que nunca existiram no Brasil elas passaram a existir com o PSDB, com Fernando Henrique Cardoso. Que comprar a reeleição, como foi isso que ele fez, passou a ser coisa menor, né?
30:30 Então, eh, eh, aquilo que o Ronaldo falou com relação a, às pessoas não serem eleitas, né? Eu tenho uma visão um pouquinho diferente. Eu acho que no final das contas as pessoas são eleitas pelo aquilo que o povo brasileiro representa e acho que o Congresso brasileiro ele reflete aquilo que o Brasil é, né? Com, com base naquilo que a gente, que a gente vê de valores que estão aí colocados e de questões objetivas. Aí você pergunta: por que que a maioria do Congresso não é petista? Por que que a maioria do Congresso não, não esteve na coligação com o Lula? Porque não existe essa coerência e essa associação imediata entre o legislativo e o executivo, porque em momentos distintos objetivamente eles irão atender a demandas distintas. Exemplo: o deputado corrupto muitas vezes ele é útil e objetivamente ele atua numa comunidade a qual ele chega lá e compra o voto, como o Ronaldo colocou. E nessa lógica a pessoa vota nele para deputado, mas ele diz: "É, mas para mim é condição geral. Bolsonaro atende menos do que Lula, eu votarei em Lula." Então, é aquela, aquela coisa que eu já disse: o eleitor não tem coerência no voto. Se tivesse nós teríamos um sistema político no Brasil muito mais estável, nós não teríamos as pressões que o Congresso, eh, nacional impõe, eh, aos presidentes, né? Você não teria esse absurdo que nós chegamos que é quase que um, um, um semiparlamentarismo onde o Congresso vem impondo derrotas absurdas e, no meu entender, o ultrapassando aquilo que lhe é competência.
32:14 O caso mesmo das emendas parlamentares, elas tiveram uma mudança muito grande na hora que elas passaram a ser impositivas e na hora que elas, elas foram transformadas em emendas impositivas, mas sem nenhum tipo de regulação em relação a ela ter algum tipo de posicionamento estratégico para o país, ela serve unicamente ao interesse do parlamentar e de quem ele vai atender. Que você, eh, precisaria estabelecer que mesmo com o mecanismo de emendas você tenha pontos estratégicos a serem alcançados. Você tem que atingir índices em saúde, em educação, em desenvolvimento econômico, em distribuição de, e não tem absolutamente nada disso. Então, você tem lá em torno de 50 bilhões do orçamento anualmente que é distribuído de maneira completamente dissociada e que não integra projeto nenhum. Esse é um, é um, é um problema muito sério e este é o verdadeiro processo hoje de compra de votos no Brasil. Esta, esta forma que foi criada da emenda impositiva ela inclusive transformou a compra de voto em algo institucionalizado, porque um deputado para você ter uma ideia, um deputado durante 4 anos ele recebe em torno de 200 milhões de emenda para distribuir como bem queira. Essa que é a verdade, como bem queira. Você acha que é possível você tirar, tirar, eh, eh, eh, um deputado desse, né, perder a sua reeleição tendo tido 200 milhões para fazer campanha? Porque a verdade é essa: aquilo que ele recebe no fundo eleitoral no período de campanha é uma merreca perto de quem passou recebendo 200 milhões. Se for botar um senador durante 8 anos, nós estamos trabalhando aí com quase 1 bilhão. É um pouco diferente porque é uma eleição majoritária, mas todos esses mecanismos eles têm impactado não só na governabilidade, mas como também têm impossibilitado você ter algum tipo de projeto estratégico para o Brasil, porque uma grande parcela daquilo que poderia ser destinado para investimento e para um projeto concatenado ele está sendo diluído com 100.000 para lá, 200.000 para cá, 1 milhãozinho ali, 1 milhãozinho aquá, e não serve para absolutamente nada. Você vai ter um monte de pequenas coisas pulverizadas que no final das contas não dá um todo, só serve para que o cara utilize isso para manter sua base, para alimentar os seus correligionários e em muitos momentos desviar parte desse dinheiro para benefício e e uso próprio, como a gente tem ouvido por aí.
O Coração da Nação e a Coerência do Eleitor
34:33 Verdade, eh, a Bianca colocou aqui um comentário no chat e vou ler antes para outra. Não disse que a extrema direita se revelou de forma mais clara que nosso país tenta esconder ao dizer que é um estado laico que respeita os direitos humanos, direitos fundamentais, perdão, revelou o coração da nação cheio de ódio, preconceito e ignorância.
35:03 Uhum. Eh, eu, eu queria, eu queria voltar num ponto aí sobre essa, essa questão. Eu, eu vou usar, eu vou usar um exemplo aqui. Aqui, eh, na cidade onde eu moro, eh, o presidente Lula ele teve 79,30% dos votos, que corresponde a 9.211 votos. Já o candidato do PP, que foi Arthur Lira, eh, um cara da direita, né, da oposição, chegou e também teve uma votação muito expressiva. Quando chegou agora nas eleições para municipal, houve aquela, vamos dizer assim, não vou usar o termo desespero, mas uma preocupação por parte do segmento da esquerda, porque a maioria do, do, da direita e da extrema direita conseguiu eleger a maioria dos prefeitos na cidade onde eu moro.
36:22 Eh, o candidato do PP teve uma votação expressiva, expressiva, quase 80% dos votos, eh, dos eleitores. E o candidato da oposição, de um campo mais assim progressista, ele ficou para trás. Mas dentro desse contexto, tem uma curiosidade que sabe como era que o eleitor chamava o, o candidato da oposição? O "quebrado". Então, a gente vive, a gente, a gente, tudo que o, que o nosso amigo falou aí, eh, tá, eh, eh, está tudo certo. O que eu quis falar e dizer quando eu falo do comércio eleitoral, comércio eleitoral de base, é que tudo aquilo que foi argumentado, que foi exposto aqui, eh, já é reflexo de uma, eh, dentro de uma dimensão grandiosa e muito complexa. Então era isso que eu queria, eh, acrescentar dentro da minha palavra, dentro do contexto que ele colocou bem.
37:52 Viu? Aí vem essa curiosidade, existe isso, e a gente tem que levar em conta que nós temos mais de 5.000 municípios, 5.668, se eu não me engano, e a maioria deles são municípios pequenos. Então, o comércio eleitoral de base ele precisava ser mais discutido dentro da sociedade para ver se chega e coloca na cabeça do eleitor coerência, eh, que ele, que ele, que ele possa, eh, eh, refletir mais sobre essa questão do voto, não fazer, fazer do seu voto um objeto de venda, de comércio, como se fosse numa prateleira: "está aqui meu voto, ele vale tanto". Enquanto isso não for quebrado, vai ser como aquela criança que chegou para minha esposa, professora do ensino fundamental, e vai continuar. E tem muitos e muitos exemplos, esse é o exemplo que eu sempre dou porque é o que mais me impactou: vai sempre existir uma criança, seja no Norte, no Nordeste, no Sul, enfim, qualquer parte do país: "Tia, esse óculos é da política!"
O Quarto Mandato de Lula
39:28 A gente falou sobre o campo da extrema direita e agora eu queria voltar com Anderson para o campo do governo atual, o governo Lula, que está no seu terceiro mandato, né? Eh, na história do, da República, Lula, por enquanto, só perde para Getúlio Vargas, né, tempo de presidência, já com mais de 12 anos. Eh, os mandatos anteriores, e pelo, eh, sim, apesar das dificuldades atuais no momento, questões de índices de aprovação, porque apontam as pesquisas, algumas dificuldades do governo, principalmente na governabilidade com o Congresso, como antes tinha pontuado, tudo indica que o Lula vai tentar um quarto mandato, né, no ano que vem. Como é que você enxerga essa... cortou aí, cortou o final aí de "enxerga para a frente", não saiu mais nada.
40:26 Como, voltando aqui então, como é que você enxerga essa busca do Lula por um quarto mandato no ano que vem, uma reeleição a que ele tem direito, né, pela lei?
40:37 Primeiro que o Lula foi presidente sempre eleito, né? Vargas foi ditador também, né? Vamos diferenciar aí o... teu áudio continua cortando aí, viu? Eh, mas olha só, o Lula é candidato a presidente por completa e total falta de... de opção, mas não tem, não tem como você construir, eh, na, na atual, eh, eh...
Com certeza! Segue a transcrição organizada:
O Quarto Mandato de Lula
41:09 conjunção e na maneira como a sociedade brasileira é formada uma liderança em condições de ter a capilaridade que o Lula tem no setor que lhe dá sustentação, que majoritariamente são as camadas mais populares e mais pobres desse Brasil. Porque, eh, a política, a comunicação, né, isso principalmente neste, neste âmbito majoritário, no âmbito, eh, eh, proporcional, vereador, deputado, você tem uma lógica um tanto quanto diferente, mas existe um processo de identificação.
41:47 O Brasil não tem outros líderes populares em condições de ter o peso eleitoral que o Lula tem nas camadas populares, ao ponto inclusive de, mesmo quando não foi candidato, né, tanto no caso da Dilma como no caso do Haddad, eh, a sua participação foi imprescindível para que o PT tivesse resultados significativos. Porque, mesmo quando o Haddad perdeu, é bom lembrar que ele teve 45% dos votos, né, não foi, não foi por acaso. E foi 45% dos votos com uma eleição indo para o segundo turno, né? E onde as pessoas votaram não foi só em Bolsonaro, votaram contra o PT também, né?
42:34 Então, o fato do Lula estar indo para um quarto mandato, eh, muita gente vai torcer a cara, vai torcer o nariz, mas a gente fica numa situação de dizer assim: "E quem é que vai ser se não for ele?" Né? Aí a pessoa diz: "Vai ser o, o, o Flávio Dino, eh, ele vai deixar de ser ministro do Supremo para voltar para a política e ser candidato?" Eh, "vai ser, sei lá, um Alckmin da vida para você trazer ele para, para dialogar com setores mais conservadores?"
43:03 Se esquece que a grande massa, né, do eleitorado brasileiro ela não está nas camadas privilegiadas. Porém, nós temos um fenômeno também que é desconsiderado por muita gente: é que esta camada mais popular e pobre do Brasil também nunca teve unidade. Porque se assim tivesse, né, as eleições seriam de lapada. Né? Você tem, eh, no Brasil, né, as chamadas classes C e D, né, muito mais de 70, 80% da população. Em algumas cidades, principalmente no Nordeste brasileiro, as, as chamadas classes A e B representam algo em torno de 5%, e os outros 95% estão lá naquela grande massa de C, D, E, né?
43:53 Então, se fosse verdade que só vota em Bolsonaro rico ou só, ou só vota em Lula pobre, Lula ganhava de lapada, não tinha essa, essa possibilidade, né? E a gente percebe que ele nunca conseguiu ganhar no primeiro turno. É essa, essa é uma, uma grande prova. E aí eu lhe pergunto: se você faz opção por dizer: "Não, não dá, não dá mais para ser o Lula, vamos agora fabricar um outro nome e vamos colocar aqui." Você acha que o resultado vai ser melhor? Eu acho muito pouco provável, acho que não existe conjuntura, acho que não existe formação de nenhuma liderança que vá conseguir, eh, fazer esse contraponto com esse setor da extrema direita, né? Apesar de que eu não acho que o Lula faz um governo de esquerda, né? Eu não acho que o Lula tenha posicionamentos extremistas. Muito pelo contrário, eu acho que o Lula tem feito em muitos momentos opções pela direita e tem acreditado que será indo cada vez mais para a direita que irá conseguir reverter alguns dos problemas que ele está tendo aqui no Brasil, né?
44:57 E majoritariamente, eh, não, não, não acredito que da maneira como está sendo, está sendo colocado o governo, da maneira como ele está tentando superar algumas dificuldades, que ele vai conseguir ter grande impacto em relação à questão eleitoral. Por quê? Porque tem um, um vício aí de, de, de origem, eu acho, eh, que não consegue se libertar de alguns rancores. Por exemplo, o governo federal, na semana passada, lançou uma nova campanha aí onde o conceito que está sendo difundido é o conceito do boné lá que jogaram na cabeça, né? O "Brasil é dos brasileiros".
45:35 Aí eu lhe pergunto, eh, será que é essa a grande, o grande questionamento que os brasileiros que estão tendo dificuldades, que estão em situação ruim no Brasil, que acreditaram no Lula? Será que o grande questionamento deles é a perda, né, desta identidade por parte do país? Será que nós temos algum, algum processo, né, significativo migratório ou de expansão de outras nacionalidades aqui dentro do país que justifica isso? Não, isso é uma resposta meramente política e direcionada ao bolsonarismo que resolveu abraçar o entreguismo, né, e defender que os Estados Unidos deveriam ter inclusive intervenção política e jurídica sobre o país. Isso serve para a população de alguma maneira? Eu entendo que não serve para absolutamente nada, tá?
46:24 Agora, se o, o, o Lula quer fazer o discurso de que o Brasil é dos brasileiros, aí eu lançaria um desafio: vamos peitar o agronegócio! Vamos chegar para o agronegócio e dizer: "Beleza, o agronegócio brasileiro é a nossa atividade mais próspera e de maior evidência no ponto de vista mundial. Mas qual é o papel social do agronegócio no Brasil? Ele cumpre algum? Absolutamente nenhum." Você tem um país que produz comida para 1 bilhão e 300 milhões de pessoas e tem gente passando fome, né? Tem gente que não está mais tendo condições de comer de maneira adequada devido ao custo dos alimentos. Então, qual é o tipo de política que se está disposto a transformar realmente o Brasil dos brasileiros? Por que que Brasil dos brasileiros é esse que você produz aqui para vender lá fora e lascar com o brasileiro? Não tem sentido.
47:13 Certo? E essa opção, ela é uma opção política, porque inclusive a gente poderia questionar algumas das atitudes do governo Lula quando ele destina muito mais para financiar o agronegócio com o Plano Safra e destina uma quantia insignificante para o Minha Casa Minha Vida. Porque é insignificante se a gente parar para pensar que os números praticados hoje no governo federal são menores do que de 10 anos atrás, quando Dilma Rousseff era presidente da República, ou melhor, de mais de 10 anos atrás já, né? Que daqui a pouco, se for considerar mesmo, Dilma só governou até 2014, depois não teve mais sossego a mulher, né?
47:50 Então, são algumas dessas, dessas questões que mostram que não é exatamente porque o Lula é de esquerda, é porque o Lula representa uma parcela da sociedade que está no imaginário do conservadorismo brasileiro, né, como algo que ele deve extirpar. Por quê? Porque, queira ou não, o Lula, por mais que ele, né, tenha tido ascensão, por mais que ele tenha tido respeito internacional, ele representa o quê? Do ponto de vista, né, não só social, mas principalmente do ponto de vista simbólico, ele representa o pobre. E até o próprio pobre, ele muitas vezes não quer que o país seja governado por quê? Porque na cabeça dele, na hora que o pobre vira símbolo de ascensão, ele vira padrão e as pessoas vêm com uma lógica de aspiração. Então, é aquela coisa: o cara é dono de uma quitanda, ele pensa que é tão empresário quanto o dono do Itaú. E aí, né, você tem essas distorções no Brasil, né, que no final das contas tudo se resume inclusive à venda do voto aqui no Brasil a um processo de quê? Extrema desigualdade.
48:58 Nós temos tido um processo de enriquecimento do país em números macro, mas quando a gente vai destrinchar ali no micro, você vai perceber que as desigualdades elas têm aumentado no Brasil. Você chega para o Nordeste brasileiro que teve todo esse processo de crescimento e o Nordeste continua sendo a região mais pobre do Brasil. Isso mostra o quê? Mostra que é insuficiente. E com um outro agravante: o Nordeste hoje já tem o estado com maior nível de desigualdade do país, que é a Paraíba, passou o Acre que era o estado mais desigual do Brasil. Então, mostra o quê? Que você está tendo um processo de crescimento macroeconômico que não reflete uma redução significativa da desigualdade social. Você tem tido o quê? Uma pequena mobilidade do setor de extrema pobreza para a pobreza, mas isso é muito pouco. Por quê? Porque do outro lado está acontecendo uma, um, um, uma projeção em escala muito grande de cada vez menos pessoas neste país deterem maior parcela das suas riquezas. Então, você dizer que o cara deixou de ser extremamente pobre para ser um pouco menos pobre é muito pouco para um país do nosso tamanho e é muito pouco para quem quer dizer que o Brasil é dos brasileiros, porque não é.
O Futuro Político Pós-Lula
50:21 Eh, eu queria lançar aqui uma pergunta também a vocês, principalmente falando dessa questão do, da figura do Lula, porque ele está, OK, tudo indica que vai tentar mesmo de fato a reeleição no ano que vem, mas assim, a carreira política do Lula talvez encerre nesse quarto mandato caso ele consiga, né? Em 2030, por exemplo, o que é do campo progressista no Brasil? Qual é o futuro desse?
50:47 Um problema de cada vez, certo? Infelizmente, nós não estamos em condições de, de, de projetar a tão longo prazo, porque olhe só: nós ainda temos uma possibilidade que é o Lula ser derrotado. Não descarta esta possibilidade, certo? Porque a gente não sabe como as insatisfações serão reveladas no processo eleitoral e quando o negócio chegar lá, vamos ver. A gente inclusive não sabe quais serão os reflexos daquilo que está acontecendo no mundo, porque se você parar para ver, agora no mês de março o Brasil virou o maior exportador de ovo para os Estados Unidos, né? Né? Os Estados Unidos tiveram que matar suas galinhas lá tudinho por conta da gripe aviária. E você teve um crescimento de 373% na importação de ovo. Isso teoricamente parece uma coisa muito pequena, não é? Mas todo mundo come ovo. E o tamanho da raiva de quem deixou de, de comer a gente só vai poder quantificá-la quando chegar na hora de que isso seja colocado na mesa como parte dos motivos para se escolher em quem vai votar para presidente.
51:56 Eu estou usando um exemplo bem rasteiro para a gente entender que as razões objetivas que para, para mim ou para você, comer um ovo ou deixar de comer é algo muito pequeno, mas para alguém que só come ovo ela tem uma significância muito grande. E num país tão pobre, a gente não pode minimizar questões desta ordem, a gente não pode minimizar a impossibilidade de se comer que é isso que pode acontecer. Nós podemos ter um processo de inflacionário muito grande no mundo se esta lógica de imposições tarifárias e essa, essa disputa comercial que está aí estabelecida se mantiver da maneira que, que está. Porque curiosamente o Brasil ser menos taxado pode ser bom só para o dono do, do agronegócio lá, para o fazendeiro, mas para o povo pode ser muito pior. Porque o que é que o que esses caras fazem? Eles estão pouco se lixando se o brasileiro vai morrer de fome, ele quer vender para quem paga mais caro. Se vai ter alguém fora do país pagando mais caro do que aqui, vai faltar comida ou a comida ficará muito mais cara aonde? Aqui. E qual é a política efetiva que você vê? Qual é o enfrentamento que se tem? Quem é nesse país que tem coragem de dizer que o agronegócio é uma atividade nociva para o país? Você já ouviu alguém falar? Não.
53:08 O agronegócio gera pouco emprego, porque as pessoas quando vão dizer que o agronegócio gera emprego eles pegam uma cadeia gigantesca e faz uma série de cruzamentos que até a salsicha da Sadia eles botam como tendo sido o agronegócio que gerou, né? O agronegócio gera muito pouco imposto porque ele é cheio de subsídios e os seus empréstimos que ele tira são todos eles subsidiados e com custos pagos pela população brasileira. Certo? Ele devasta o meio ambiente de maneira irresponsável, né, produzindo todo tipo de de absurdo que a gente conhece. E para completar ainda financia a quebra do Estado democrático nesse país. Tem algum sentido disso ser o nosso principal carro-chefe? É muito, é muito complicado, né?
Agradecimentos Finais
53:52 Eu queria encaminhar já para encerramento da nossa discussão. Passa, e eu também não quero deixar a transmissão também tão muito longa para quem vai assistir depois, se quiser. E encerrar justamente agradecendo a presença e participação de vocês aqui comigo nessa transmissão, agradecer a quem nos acompanhou e dizer também que a gente está com essa transmissão salva, vai ficar salvo assim que isso for encerrado aqui. E para quem puder assistir, quiser também ir lá e deixar o seu comentário, seu posicionamento lá também, fique à vontade.
54:27 Quero agradecer a Ronaldo, a Anderson, por gentilmente aceitarem o nosso convite aqui para esse debate. As discussões são muitas, a gente tem que saber, eh, filtrar para não estender muito tempo, passar muito tempo, ocupar o tempo das pessoas. E eu novamente agradeço a presença de vocês e deixo o convite aberto também para outra oportunidade caso queiram voltar, retornar, continuar a discussão ou encaminhar outros também.
54:52 Bom, para mim foi uma satisfação muito grande poder participar desse debate. Agradeço pelo convite, ter, eh, dialogado aqui com Anderson de forma direta, aliás indireta, mas foi um, um diálogo que houve uma complementação do que ele falou dentro daquilo que eu também havia dito, porque são, ele, ele, ele comentou a dimensão daquilo que eu acredito quando fala, quando eu falo sobre essa questão do comércio eleitoral de base. Então, foi um prazer, eh, estar com vocês aqui e poder participar.
55:39 Eh, eu também agradeço a participação, dizer que é sempre bom esse tipo de bate-papo, né? Eh, a gente tem um país que se conversa muito sobre política, eu digo política no, no sentido do estrito senso, né? Você tem muita, eh, discussão em torno de agentes políticos, mas na maioria das vezes a gente não aprofunda os temas e fica muito mais nos estereótipos e nas discussões morais do que propriamente discutindo conceitos e e abordando temas com maior profundidade. Então, agradeço, agradeço ao Ronaldo, agradeço pelo convite e numa outra oportunidade a gente pode voltar a conversar.
56:23 Até a próxima, até.
Transcrição da entrevista feita pelou You Tube e organizada pelo Gemini AI.