2 de fev. de 2026

 

NOITE INFINDA

                                                            

                                        Franklin Magalhães Ribeiro

 

 Ao longe, o barulho do trânsito já não tão intenso teima, ainda, em perturbar a paz da noite que se inicia.

As mensagens avistáveis ao telefone acumulam-se e surgem aos borbotões vomitando informações inúteis, notícias falsas, leituras enviesadas da realidade disforme, acidentes, crimes, mortes e toda sorte de mazelas que atormentam as vidas alheias e são noticiadas sob falsa solidariedade.

Poetas de rimas forçadas, textos medíocres, métrica horrenda, estilos que nutrem a alma dos ignorantes e a hipocrisia dos aplausos descabidos e desmedidos, conversas esvaziadas de mínimo conteúdo ou lógica, desprovidas de nexo, infantis, fúteis, inservíveis pululam a não mais poder.

Fecho os olhos em busca de enxergar o meu íntimo e buscar, alí, algo que possa iluminar minimamente a vida que se apresenta vã.

O fungado do cão curioso chama-me de volta ao obscuro, como se me dissesse: “onde vais?” “Cá estou”. Essa criança que não cresce implora por uma derradeira brincadeira.

Relutante, descerro os olhos e apresso o passo para seguir adiante.

As dores do dia-a-dia chamam o meu nome. Urgem e relutam em deixar-me. O “bolo” no estômago não me abandona. O cansaço teimoso não se dá por vencido e vem acompanhado das preocupações que afloram e impedem o sono, a cada vez que penso em deitar-me.

O relógio avança.

Listo as tarefas do dia seguinte. Planejo as atividades da semana, do mês, do ano…

Caminho por solucionar todos os problemas pessoais, familiares, locais, do bairro, da cidade, do país, da humanidade. Todas as soluções são simples. Transformo-me em herói, resolvo pendengas antigas, volto à juventude, encaro uma velhice produtiva e interminável, como convém aos que tudo resolvem, até, a marcha do tempo.

O silêncio já invade a madrugada e o relógio inclemente continua no tictaquear sem fim. Prenuncia o breve amanhecer.

Que fazer? A televisão já não satisfaz. Ler é tarefa impensável àquela altura da noite com a mente prenhe de problemas insolúveis. Esperar a vontade de dormir chegar, já não dá.

E o maldito relógio parece haver travado. Os ponteiros, inda há pouco céleres, parecem ter me furtado o sono e resolveram entregar-se, eles próprios, a Morfeu.

Lembro de um velho bolero em que o autor implora que o relógio não ande. Como queria quebrar esse disco nesse instante, pois parece que as deusas gregas filhas de Zeus e Têmis resolveram acolher o pedido infame.

De repente, duas frases vêm-me à lembrança e me aquietam. O relógio, como em mágica, volta ao ritmo normal e resoluto decido: sim, olharei os lírios do campo e complicarei menos, atendendo às recomendações de Jesus e da banda Titãs.

Mas isso me traz uma nova linha de pensamento que puxa outros mis e como vagas infindas no mar revolto, vêm e vão, vão e vêm em movimento interminável.

Trabalho, empregados, obra, processo, prazo, tarefa inconclusa, atendimento, reunião, a parede com revestimento solto, o preço do material, o volume das vendas, a promoção, o salário, o vale transporte, o leite, a casa, o veículo, tudo corrói o sono eficazmente.

O silêncio é profundo lá fora. Só resta o soar da sirene da moto do vigia noturno a justificar o pagamento que lhe fazem os moradores das cercanias e os insetos que rompem o silêncio sepulcral da madrugada que já vai alta.

O breve cochilar não afasta o ardor dos olhos, o qual o médico atribuiu a dormir de olhos abertos. Antes, pudesse dormir, penso eu com meus botões.

É quase inverno. Mesmo as quatro estações conspiram contra mim. Preocupo-me com elas.

Até o barulho do roçar no travesseiro dos pelos da barba feita horas antes - mas já apontando – perturba-me e me leva a pensar nas misérias impostas ao clima. Teria gastado água demais para fazê-la?

Impressionante como o pensamento vagueia entre centenas de caminhos curvilíneos e desconexos!

Lá fora, parece chover e as ideias viajam céleres.

Como podem os responsáveis pelo sofrimento alheio e pelos graves desajustes do clima recostarem as suas cabeças e serem alcançados pelo sono tranquilo e eu, não?

Olho pela milésima vez o relógio no alto da tela do telefone. O aplicativo do tempo e do clima me informa que em meia hora o sol irá raiar.

Finalmente, o sono me vence, mas, em instantes, é hora de despertar.


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