NOITE INFINDA
Franklin Magalhães RibeiroAs mensagens avistáveis ao telefone
acumulam-se e surgem aos borbotões vomitando informações inúteis, notícias
falsas, leituras enviesadas da realidade disforme, acidentes, crimes, mortes e
toda sorte de mazelas que atormentam as vidas alheias e são noticiadas sob falsa
solidariedade.
Poetas de rimas forçadas, textos medíocres,
métrica horrenda, estilos que nutrem a alma dos ignorantes e a hipocrisia dos
aplausos descabidos e desmedidos, conversas esvaziadas de mínimo conteúdo ou
lógica, desprovidas de nexo, infantis, fúteis, inservíveis pululam a não mais
poder.
Fecho os olhos em busca de enxergar o meu
íntimo e buscar, alí, algo que possa iluminar minimamente a vida que se
apresenta vã.
O fungado do cão curioso chama-me de volta ao
obscuro, como se me dissesse: “onde vais?” “Cá estou”. Essa criança que não
cresce implora por uma derradeira brincadeira.
Relutante, descerro os olhos e apresso o passo
para seguir adiante.
As dores do dia-a-dia chamam o meu nome. Urgem
e relutam em deixar-me. O “bolo” no estômago não me abandona. O cansaço teimoso
não se dá por vencido e vem acompanhado das preocupações que afloram e impedem
o sono, a cada vez que penso em deitar-me.
O relógio avança.
Listo as tarefas do dia seguinte. Planejo as
atividades da semana, do mês, do ano…
Caminho por solucionar todos os problemas
pessoais, familiares, locais, do bairro, da cidade, do país, da humanidade.
Todas as soluções são simples. Transformo-me em herói, resolvo pendengas
antigas, volto à juventude, encaro uma velhice produtiva e interminável, como
convém aos que tudo resolvem, até, a marcha do tempo.
O silêncio já invade a madrugada e o relógio
inclemente continua no tictaquear sem fim. Prenuncia o breve amanhecer.
Que fazer? A televisão já não satisfaz. Ler é
tarefa impensável àquela altura da noite com a mente prenhe de problemas
insolúveis. Esperar a vontade de dormir chegar, já não dá.
E o maldito relógio parece haver travado. Os ponteiros, inda há pouco céleres, parecem ter me furtado o sono e resolveram entregar-se, eles próprios, a Morfeu.
Lembro de um velho bolero em que o autor
implora que o relógio não ande. Como queria quebrar esse disco nesse instante,
pois parece que as deusas gregas filhas de Zeus e Têmis resolveram acolher o
pedido infame.
De repente, duas frases vêm-me à lembrança e
me aquietam. O relógio, como em mágica, volta ao ritmo normal e resoluto decido:
sim, olharei os lírios do campo e complicarei menos, atendendo às recomendações
de Jesus e da banda Titãs.
Mas isso me traz uma nova linha de pensamento
que puxa outros mis e como vagas infindas no mar revolto, vêm e vão, vão e vêm
em movimento interminável.
Trabalho, empregados, obra, processo, prazo,
tarefa inconclusa, atendimento, reunião, a parede com revestimento solto, o
preço do material, o volume das vendas, a promoção, o salário, o vale
transporte, o leite, a casa, o veículo, tudo corrói o sono eficazmente.
O silêncio é profundo lá fora. Só resta o soar
da sirene da moto do vigia noturno a justificar o pagamento que lhe fazem os
moradores das cercanias e os insetos que rompem o silêncio sepulcral da
madrugada que já vai alta.
O breve cochilar não afasta o ardor dos olhos,
o qual o médico atribuiu a dormir de olhos abertos. Antes, pudesse dormir, penso
eu com meus botões.
É quase inverno. Mesmo as quatro estações
conspiram contra mim. Preocupo-me com elas.
Até o barulho do roçar no travesseiro dos
pelos da barba feita horas antes - mas já apontando – perturba-me e me leva a
pensar nas misérias impostas ao clima. Teria gastado água demais para fazê-la?
Impressionante como o pensamento vagueia entre
centenas de caminhos curvilíneos e desconexos!
Lá fora, parece chover e as ideias viajam
céleres.
Como podem os responsáveis pelo sofrimento
alheio e pelos graves desajustes do clima recostarem as suas cabeças e serem
alcançados pelo sono tranquilo e eu, não?
Olho pela milésima vez o relógio no alto da tela do telefone. O aplicativo do tempo e do clima me informa que em meia hora o sol irá raiar.
Finalmente, o sono me vence, mas, em instantes, é hora de despertar.


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