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2 de fev. de 2026

Noite Infinda

  

 Ao longe, o barulho do trânsito já não tão intenso teima, ainda, em perturbar a paz da noite que se inicia.

As mensagens avistáveis ao telefone acumulam-se e surgem aos borbotões vomitando informações inúteis, notícias falsas, leituras enviesadas da realidade disforme, acidentes, crimes, mortes e toda sorte de mazelas que atormentam as vidas alheias e são noticiadas sob falsa solidariedade.

Poetas de rimas forçadas, textos medíocres, métrica horrenda, estilos que nutrem a alma dos ignorantes e a hipocrisia dos aplausos descabidos e desmedidos, conversas esvaziadas de mínimo conteúdo ou lógica, desprovidas de nexo, infantis, fúteis, inservíveis pululam a não mais poder.

Fecho os olhos em busca de enxergar o meu íntimo e buscar, alí, algo que possa iluminar minimamente a vida que se apresenta vã.

O fungado do cão curioso chama-me de volta ao obscuro, como se me dissesse: “onde vais?” “Cá estou”. Essa criança que não cresce implora por uma derradeira brincadeira.

Relutante, descerro os olhos e apresso o passo para seguir adiante.

As dores do dia-a-dia chamam o meu nome. Urgem e relutam em deixar-me. O “bolo” no estômago não me abandona. O cansaço teimoso não se dá por vencido e vem acompanhado das preocupações que afloram e impedem o sono, a cada vez que penso em deitar-me.

O relógio avança.

Listo as tarefas do dia seguinte. Planejo as atividades da semana, do mês, do ano…

Caminho por solucionar todos os problemas pessoais, familiares, locais, do bairro, da cidade, do país, da humanidade. Todas as soluções são simples. Transformo-me em herói, resolvo pendengas antigas, volto à juventude, encaro uma velhice produtiva e interminável, como convém aos que tudo resolvem, até, a marcha do tempo.

O silêncio já invade a madrugada e o relógio inclemente continua no tictaquear sem fim. Prenuncia o breve amanhecer.

Que fazer? A televisão já não satisfaz. Ler é tarefa impensável àquela altura da noite com a mente prenhe de problemas insolúveis. Esperar a vontade de dormir chegar, já não dá.

E o maldito relógio parece haver travado. Os ponteiros, inda há pouco céleres, parecem ter me furtado o sono e resolveram entregar-se, eles próprios, a Morfeu.

Lembro de um velho bolero em que o autor implora que o relógio não ande. Como queria quebrar esse disco nesse instante, pois parece que as deusas gregas filhas de Zeus e Têmis resolveram acolher o pedido infame.

De repente, duas frases vêm-me à lembrança e me aquietam. O relógio, como em mágica, volta ao ritmo normal e resoluto decido: sim, olharei os lírios do campo e complicarei menos, atendendo às recomendações de Jesus e da banda Titãs.

Mas isso me traz uma nova linha de pensamento que puxa outros mis e como vagas infindas no mar revolto, vêm e vão, vão e vêm em movimento interminável.

Trabalho, empregados, obra, processo, prazo, tarefa inconclusa, atendimento, reunião, a parede com revestimento solto, o preço do material, o volume das vendas, a promoção, o salário, o vale transporte, o leite, a casa, o veículo, tudo corrói o sono eficazmente.

O silêncio é profundo lá fora. Só resta o soar da sirene da moto do vigia noturno a justificar o pagamento que lhe fazem os moradores das cercanias e os insetos que rompem o silêncio sepulcral da madrugada que já vai alta.

O breve cochilar não afasta o ardor dos olhos, o qual o médico atribuiu a dormir de olhos abertos. Antes, pudesse dormir, penso eu com meus botões.

É quase inverno. Mesmo as quatro estações conspiram contra mim. Preocupo-me com elas.

Até o barulho do roçar no travesseiro dos pelos da barba feita horas antes - mas já apontando – perturba-me e me leva a pensar nas misérias impostas ao clima. Teria gastado água demais para fazê-la?

Impressionante como o pensamento vagueia entre centenas de caminhos curvilíneos e desconexos!

Lá fora, parece chover e as ideias viajam céleres.

Como podem os responsáveis pelo sofrimento alheio e pelos graves desajustes do clima recostarem as suas cabeças e serem alcançados pelo sono tranquilo e eu, não?

Olho pela milésima vez o relógio no alto da tela do telefone. O aplicativo do tempo e do clima me informa que em meia hora o sol irá raiar.

Finalmente, o sono me vence, mas, em instantes, é hora de despertar.


 Franklin Magalhães Ribeiro, Presidente da APLCAD (Academia de Letras, Cultura, Artes e Desportos, membro do CCP (Centro de Cultura de Propriá), advogado.


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11 de set. de 2024

De voos e futebol

 


Escrito por Franklin Ribeiro, Advogado, Presidente da APLCAD (Academia Propriaense de Letras, Ciências, Artes e Desportos)

As pessoas se acomodam em pequenos espaços e se jogam ao ar na esperança de que chegarão ilesas ao destino.

 Viajantes rotineiros, marinheiros de primeira viagem, passageiros ocasionais todos se olham em busca de conhecidos. Aqui ou acolá, detectam algum rosto familiar. É o suficiente para aliviar a tensão, ou se sentir alguém, ante a saudação respondida.

Preces silenciosas, ou nem tanto, apelam ao divino que a Sua Mão Sagrada segure a aeronave e não a deixe cair.

 Vão-se todos, fiados no treinamento de um desconhecido e no funcionamento adequado de um conjunto de aparelhos e fios que ficam a bordo de uma engenhoca metálica e em um lugar distante milhares de metros e que mantém contato com o camarada desconhecido por meio de sinais emitidos a um amontoado de ligas metálicas, fios, cabos e antenas que nem na Terra se encontra.

 Quando em vez, o desconhecido - preferentemente naquele momento em que você, que sofre de insônia, milagrosamente conseguiu tirar um cochilo - rompe o silêncio para dar alguma notícia absolutamente inútil ao seu conhecimento, a não ser para trazer pavor aos temerosos, ou aumentar a quantidade e o volume das preces dos crentes. “Estamos a 10.000 pés”; “afivelem os cintos, estamos entrando em zona de turbulência” - como se a tremedeira da aeronave já não fosse suficiente para lhe avisar do fato e, na saída, a Chefa da Cabine já não tivesse dito que todos deveriam ficar com os cintos afivelados - “a temperatura do lado de fora da aeronave é de -23° C” - essa foi dita só para lhe acordar, mesmo, ou para lhe recomendar que, se morrer pensando em ir para o céu, é bom colocar no caixão uma roupa de esquimó, pois aquele paletó surrado não vai adiantar muito. As mulheres, coitadas, normalmente sentem mais frio e só se vão com um vestidinho. Não fosse o canalha do comandante a chamar a atenção para isso no meio da noite, quem o faria?

 E eu, querendo saber o resultado do jogo do Flamengo. Seguramente, não estou só e outros passageiros preferem saber os resultados de alguma outra equipe. É capaz de ter, até, algum torcedor do Botafogo, nada obstante, no avião não pareça ter ninguém com mais de 90 anos.

 Mas, desprovida de qualquer noção, realmente, é a tal Chefa da Cabine.

 Todo voo ela informa que o assento da aeronave é flutuante ou que embaixo dele tem um colete salva-vidas. As pessoas sentem-se protegidas até a hora em que o comandante anuncia estarmos a 10.000 pés; olham pela janela mais próxima e, lá embaixo, nenhum filete de água se avista. É só montanha. Uma infinidade de montanha que você sabe não tem nenhuma possibilidade de pouso. Ou, vez por outra, algum riacho absolutamente sem condição de receber um avião do porte daquele que leva centenas de pessoas. Quando um rio decente aparece, é tão sinuoso que pousar alí é impensável.

 Poderia puxar um “Segura na mão de Deus e vai”. Ajudaria os religiosos a lembrarem das suas orações. Não. Prefere passar informação sem qualquer finalidade prática.

 As crianças, de colo ainda, esguelham-se a chorar desesperadas - não querem que apenas os seus frágeis ouvidinhos doam sozinhos - enquanto as suas mães envergonhadas com o escândalo que fazem, não sabem se tentam puxar a chupeta da bolsa ou se tiram o seio do sutien e enfiam-no na boca dos pimpolhos. Os pais, impacientes com a cena, tentam fingir que não é com eles e pensam no resultado do futebol.

 Muita gente já escreveu e falou coisas semelhantes, entretanto ninguém se move para mudar isso. Parece que a irresignação não toca nenhuma vivalma.

Então, por favor, em voos desprovidos de televisores, melhor chamar Wilson Tavares, o melhor plantonista esportivo do rádio sergipano, e quetais para chefiar a equipe de bordo.

 PS: À saída da aeronave avistei o botafoguense e parei para conversar. Sentado na primeira fileira, vestido com a camisa listrada e estrela solitária, o senhorzinho usando fralda, falava dos gols de Garrincha, a quem assistira jogar desde quando começou no time carioca. Em tudo, relembra o Botafogo. Frágil, mas com boa memória.

 

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