Oito dias após a grandiosa procissão fluvial de Bom Jesus dos Navegantes nas águas do Velho Chico, a sociedade propriaense volta a se reunir. Desta vez, o encontro transcende o sagrado para abraçar, de forma discreta e respeitosa, o profano: é o dia da derrubada do mastro nos bairros Poeira e Matadouro. O evento anuncia o Carnaval e, embora a cidade hoje não dispute o vulto carnavalesco da vizinha Neópolis, mantém viva sua essência singular.
Propriá se transforma. Se no calendário civil o ano já caminha para o seu segundo mês, para o propriaense a vida só recomeça após esses testemunhos de fé e cultura. Como narram os mais antigos, a derrubada do mastro e o cortejo pelas ruas não são apenas ritos festivos; o mastro, em tese, representa o próprio Bom Jesus, um símbolo centenário que carrega a história da gente ribeirinha. Um elo marcante dessa tradição é a dança das mulheres ao redor do mastro sob o som da banda de pífano: o bailado que se vê na noite solene da missa do mastro repete-se agora, com o mesmo vigor, no momento da derrubada. Entre goles de batida de tamarindo (ou "tamarina", na variante regional) e o banho refrescante do carro-pipa, o devoto se faz folião.
Cada mastro da cidade possui sua peculiaridade, mas o do bairro Poeira se destaca pela tradição de percorrer as ruas ao som da Filarmônica Santo Antônio. É um desafio ímpar e uma marca registrada: sem esse cortejo, a festa parece incompleta. É um momento de profunda emoção, especialmente para os idosos que, impossibilitados de sair, veem a festa chegar às suas portas. Impossível não recordar figuras como o saudoso senhor Gato Seco, cujos olhos se enchiam de lágrimas ao ver o mastro passar.
O Poder Público e as organizações culturais precisam olhar para este momento com o devido zelo. A festa não se encerra na missa campal da Catedral; ela pulsa até o retorno do Bom Jesus à sua capela. Preservar essa tradição é garantir que o coração de Propriá continue batendo forte. Viva a cultura propriaense!
Cleno Vieira é licenciado em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), membro do Centro de Cultura de Propriá (CCP) e acadêmico na Cadeira nº 20 da Academia Propriaense de Letras, Ciências, Artes e Desportos (APLCAD), onde atualmente é o secretário-geral.
Uma boa crônica!
ResponderExcluirBela crônica. Diz muito bem dessa rica mistura entre sagrado e profano, que se manfesta nos festejos religiosos da cidade, com destaque para a Romaria do Bom Jesus dos Navegantes. Tal harmonia integra o trinômio memória, fé e cultura, que tem na sua crônica um registro importante para a comunidade propriaense.
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