Concreto não pica ninguém: a gramática explicada por um escorpião mal-educado
Aula de hoje: Substantivo concreto × substantivo abstrato
Este é um tema que gera controvérsia entre os próprios professores de Língua Portuguesa: afinal, o que diferencia um substantivo concreto de um abstrato? Diferentes gramáticos propõem definições ligeiramente distintas, e é comum encontrar exemplos de fronteira que dividem opiniões em sala de aula.
Minha proposição
Definição: o substantivo abstrato depende de um ser para existir; o substantivo concreto não depende de nada além de si mesmo para existir.
Saudade é abstrata porque depende de quem sente saudade — sem um ser que a sinta, ela não existe.
Tristeza segue a mesma lógica: só existe enquanto houver alguém que a sinta.
Entorno também é abstrato: só faz sentido em relação a algo ou alguém que ele envolve.
Figura 1 — Substantivo concreto × substantivo abstrato
A história do sapo e do escorpião
O sapo e o escorpião estavam à beira do rio São Francisco quando ambos perceberam que a noite se aproximava e que precisariam atravessar o leito, já que naquela cidade não havia ponte sobre o rio. O escorpião perguntou ao sapo se poderia subir em suas costas para atravessar, mas o sapo, de imediato, recusou, argumentando que o escorpião poderia picá-lo e matá-lo no meio do caminho.
O escorpião respondeu que não faria isso: estando sobre as costas do sapo, uma picada mataria os dois, já que ele próprio não sabia nadar e não sobreviveria na água. A joaninha que observava a cena pensou, intrigada, que até o “diabo”, como se referia ao escorpião, tinha senso de lógica, pois sabia argumentar com coerência.
Depois de um minuto de hesitação, ainda desconfiado, o sapo aceitou. Já perto do fim da travessia, quando as patas dianteiras já tocavam a terra, o sapo sentiu uma picada fina e repentina nas costas. Sem pescoço e sem tempo para pensar, virou-se como pôde e perguntou ao escorpião por que ele havia feito aquilo, condenando os dois.
O escorpião respondeu: “É do meu instinto natural fazer isso. Eu não sou seu predador, caro amigo, mas hoje eu te matei.”
Referências
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 39. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 7. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2016.
Cleno Vieira é professor de Língua Portuguesa, graduado em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).