Depois do Mastro: o que fica na Memória de Propriá
Escrevi, há algum tempo, sobre o encontro do sagrado com o profano em nossa Propriá: a procissão fluvial de Bom Jesus dos Navegantes e, oito dias depois, a derrubada do mastro nos bairros Poeira e Matadouro, aquele rito que anuncia o Carnaval e devolve à cidade o seu verdadeiro calendário, o calendário do afeto, da fé e da memória. Volto ao tema porque há algo que ficou por dizer, e que merece registro neste espaço.
É que o mastro, uma vez derrubado, não desaparece da vida propriaense. Ele se transforma em lembrança, em conversa de calçada, em assunto que atravessa o ano até a festa seguinte. Quem cresceu em Propriá sabe que a espera pelo próximo mastro começa quase no mesmo instante em que o anterior toca o chão. É essa circularidade que dá à nossa cidade um ritmo próprio, diferente do ritmo apressado das grandes capitais, e que os mais jovens, tomados pela pressa do tempo digital, correm o risco de não aprender a apreciar.
Lembro, mais uma vez, da figura do saudoso Gato Seco, cujos olhos marejavam ao ver o cortejo da Filarmônica Santo Antônio passar diante de sua porta. Havia nele uma gratidão silenciosa, quase religiosa, por aquele instante em que a festa ia até quem não podia mais ir até ela. Esse gesto, o de levar a alegria a quem não pode buscá-la, é, talvez, o ensinamento mais bonito que a tradição do mastro nos deixa. Não é apenas uma festa que se assiste; é uma festa que cuida dos seus.
Quanto mais penso nesse rito, mais me convenço de que ele não nasceu do nada, nem é mera importação de costumes alheios adaptados ao nosso jeito de ser. Ele brotou desta terra, das águas do Opará, do encontro de gentes que aqui se cruzaram ao longo dos séculos, portugueses, africanos e, antes de todos eles, os povos originários que deram nome a este chão muito antes de existir a Propriá que conhecemos. E é justamente aí que o mastro e a origem do nome da nossa cidade se encontram, dois fios de uma mesma trama.
Recentemente, tive a honra de comentar, neste mesmo espaço, a bela pesquisa do presidente da nossa Academia Propriaense de Letras, Ciências, Artes e Desporto, o confrade Franklin Magalhães Ribeiro, sobre a origem indígena do nome de Propriá. Franklin nos mostrou, com o rigor de quem não se contenta com a explicação mais fácil, que o nome de nossa cidade vem da lagoa Purupii, registrada em mapa holandês do século XVII, e que, segundo a tradição kariri dzubukuá, pode significar “flor pequenina”. Em seu texto, aliás, há uma frase que guardo comigo desde que a li pela primeira vez: ele observa que “os vencedores sempre contam a história escondendo os vencidos, tornando-os insignificantes, fracos, indignos”.
Pois bem: penso que o mesmo alerta vale para as nossas festas populares. Quando celebramos o mastro, a procissão fluvial, a dança das mulheres ao som do pífano, estamos também, ainda que sem plena consciência disso, celebrando resquícios de uma ancestralidade muito mais antiga do que o catolicismo que hoje empresta às festas o seu vocabulário e os seus santos. Os ritmos, os cortejos, a relação íntima do povo ribeirinho com o rio e com a terra carregam ecos de um tempo em que os primeiros habitantes desta região, os mesmos que, segundo Franklin, batizaram a lagoa Purupii, já sabiam celebrar a vida, a fartura e a passagem das estações à sua maneira. A fé cristã se sobrepôs, mas não apagou por completo o que veio antes; apenas revestiu de novos símbolos uma vocação de festejar que já pulsava nestas margens.
Por isso insisto, uma vez mais, que o Poder Público e as instituições culturais de Propriá precisam enxergar essas manifestações populares não como curiosidade folclórica, mas como patrimônio vivo que exige política pública, apoio às filarmônicas, às bandas de pífano e aos moradores que, ano após ano, sustentam essa tradição no próprio bolso e na própria fé. Documentar, registrar, ensinar às crianças nas escolas de onde vem esse costume, e também de onde vem o próprio nome da nossa cidade, é tarefa que não pode ficar só a cargo da memória oral dos mais velhos, por mais preciosa que ela seja. Uma cidade que esquece a origem do seu nome corre o risco de esquecer, também, a origem das suas festas.
Que o mastro continue caindo, ano após ano, nos bairros Poeira e Matadouro. E que, quando cair, encontre sempre uma Propriá disposta a lembrar por que ele foi erguido e disposta, também, a lembrar de onde ela mesma veio, das águas da lagoa Purupii até as ruas que hoje a festa percorre.
Cleno dos Santos Vieira é licenciado em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), membro do Centro de Cultura de Propriá (CCP) e acadêmico na Cadeira nº 20 da Academia Propriaense de Letras, Ciências, Artes e Desportos (APLCAD), onde atualmente é o secretário-geral.
Texto escrito em referência à crônica “O Encontro do Sagrado com o Profano em Propriá”, publicada no Blogue do Ron Perlim em fevereiro de 2026, e ao artigo “Propriá, de onde vem o seu nome?”, de autoria de Franklin Magalhães Ribeiro, Presidente da Academia Propriaense de Letras, Ciências, Artes e Desporto.
